quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O$ CARA$ DE PAU DA FÉ - PRIMEIRO CAPÍTULO

De Warlen Pontes
PRIMEIRO CAPÍTULO

FEVEREIRO DE 2002 - SEGUNDA-FEIRA.
EM ALGUM POSTO DE GASOLINA DO NORDESTE, PRÓXIMO A NOVA CABROBÓ...
DUAS HORAS DA TARDE

Um vectra prateado estaciona para abastecer.
Dentro do carro, os irmãos e pastores, Roberto Jorge e Paulo Jorge.
Em seguida, um outro vectra só que com vidros escurecidos, estaciona atrás.

NA ESTRADA, após abastecer, Roberto e Paulo comentam sobre a viagem.
(Roberto) - Que noite abençoada! Você estava inspirado, meu irmão! Paulo começa a cantarolar uma música...
(Paulo) - Caminhando eu vou para Canaã... Caminhando eu vou para Canaã... Roberto acompanha fazendo a segunda voz.
(Roberto) - Caminhando eu vooooou, para Canaãããããã...
Os dois - Glória a Deus! Caminhando eu vou para Canaã...
(Roberto) - Tem aquela outra canção...
Eram cem ovelhassssssss...
(Paulo) - Duzentas orelhassssss...
Os dois riem.
(Roberto) - Eram cem ovelhassssss...
(Paulo) - Quatrocentos pés.
Os dois soltam uma gargalhada.
(Roberto) - Só você mesmo pra fazer a gente rir nesta estrada e neste sol escaldante...
(Paulo) - Faz parte, aliás, que estrada! Cheia de curvas! Vai devagar que tem um precipício logo a frente, apesar de caminhar pra Canaã, não quero ir tão cedo pra lá!
(Roberto) - Misericórdia! Papo brabo, irmão!
(Paulo) - Quero criar minha piqueruxa com muito amor. Minha futura publicitária.
Roberto com dificulades em frear o carro.
(Roberto) - Não estou gostando disso!
(Paulo) - O que está havendo?
(Roberto) - Não sei. O freio não funciona!


LOGO APÓS APARECE O VECTRA PRETO COM VIDROS ESCURECIDOS que PARA.
DE DENTRO DO CARRO SAI UM HOMEM VESTIDO COM UM TERNO PRETO BEM CORTADO E SAPATOS PRETOS IMPECÁVEIS.
ELE OLHA PARA BAIXO. UMA EXPLOSÃO. PEGA O CELULAR E FALA.
- Missão cumprida! Mais dois em Canaã. (ri)

 FACHADA DA IGREJA CENTRAL DAS MANSÕES CELESTIAIS


NOVA CABROBÓ
DOMINGO, 11 da manhã - DEZ ANOS DEPOIS...

Interior da Igreja Central das Mansões Celestiais.
No palco, um côro de 400 vozes mistas encerra a sua apresentação de Aleluia de Handel. Atrás dele, uma cortina em veludo de cor vinho e com holofotes como se fosse noite de apresentação do Oscar. A voz de um locutor ecoa sobre a nave principal da igreja.
- E agora, com vocês! O nosso querido, inoxidável, midiático e carismático pastor! 
Osvaldinho Caruaru!
Muitos aplausos! 
O locutor continua:
- Ele trará aos nossos corações, como mensageiro escolhido por Deus, a  Sua santa palavra com uma mensagem de sabedoria, eloquência e amor.

Nesta hora, abrem-se as cortinas! Uma orquestra faz uma introdução arrebatadora. 
Ao rufar de tambores, ao som de clarins e clarinetes, surge Osvaldinho  (muito aplaudido de pé) de uma plataforma móvel vinda debaixo do púlpito. Com os braços erguidos para o alto e os dois polegares em sinal de positivo. 
Ele veste um terno de cor azul marinho, com um lenço vermelho no bolso de cima, sapatos marrons impecáveis e cabelos muito bem penteados e com gel. 
Os aplausos parecem durar uma eternidade e Osvaldinho parece gostar e muito. 
Fim dos aplausos. Já com o microfone de lapela, ela faz o intróito de sua mensagem.  

(Osvaldinho) - Eu gosthu desse locutor! Ele fala bunithu, imponente, grosso! Voz de macho! Meus queridos e amados é com coração cheio de fé, com o rosto iluminado, com os olhos brilhantes, que os saúdo esta manhã com a graça (empolga-se) maravilhosa e redentora de nosso Senhor e salvador Jesus Cristo! Amém? (uma multidão responde amém)

No banco sentada à frente do palco estão Adelene (sua esposa) e Edviges (esposa de Gercivaldo).
(Adelene) - Me arrepio toda quando ele fala assim...
(Edviges) - Que unção! Se Gercivaldo entrar no palco agora, ele escorrega no óleo.
As duas riem.

(Osvaldinho) - Meus amados e queridos. Eu estou arretado de inspirado! Sinto que vou arrebentar com tudo! Aleluia, irmãos? (a multidão responde empolgada com muitos aplausos). 
Nesta manhã de sol fulgente, de céu límpido, vou tratar de um assunto que tem me incomodado há bastante tempo: a pobreza. 
(um ouvinte grita: misericórdia!) Isso mesmo irmã, misericórdia! Não podemos admitir a pobreza nas nossas vidas! Nos nossos lares! E, principalmente, em nossa igreja! Aleluia, irmãos? (a multidão responde empolgada, Aleluia!). 

A pobreza é um absurdo ululante! Irmãs e irmãos, vocês já ouviram falar, ou melhor, já leram nas escrituras sagradas (levanta a Bíblia) que no céu existem favelas espirituais? 
Ahn? Não ouvi! (a multidão responde, não!). Não, irmãos, não existem! No céu existem mansões celestiais! É por isso que quando assumi esta igreja dez anos atrás, fiz questão de mudar o nome de Central da Paz para Igreja Central das Mansões Celestiais! Por isso que temos que investir nas mansões celestiais! Sabem como? Dando o máximo que temos do nosso dinheiro! Imaginem vocês sentados na cadeira da varanda da sua mansão celestial contemplando o rio que sai do trono do nosso Deus 'allmite', todo poderoso? 
Que ma-ra-vi-lha! Aleluia, irmãos? (multidão responde: Aleluia!).
A nossa igreja prega a riqueza porque o céu é rico! Simples assim.

(Edviges) - Osvaldinho tá inspirado mesmo!
(Adelene) - Ô, se tá! Tá com a muléstia hoje!
As duas riem.

DO LADO DE FORA DA IGREJA...
UM HOMEM MORENO E ALTO PEGA UM CELULAR E FALA.
- Hoje foi mais uma daquelas mensagens sobre dinheiro. A quarta do mês. Sempre as mesmas coisas, a pobreza, as mansões celestiais, as favelas espirituais... não sei como esse povo aguenta. Gravei tudo. Até amanhã.

EM FORTALEZA, DUAS SEMANAS DEPOIS...
NUM HOTEL CINCO ESTRELAS, QUATRO HORAS DA TARDE.

Osvaldinho e sua irmã, Tereza Cristina. 
(Tereza Cristina) - Vou dar uma saidinha Valdinho e devo demorar umas duas horas. Coisas de mulher (ri).
(Osvaldinho) - Vá, vá, minha mana lindha! Demore o tempo que for...

Ela dá um beijo em seu rosto e se retira. Sai do quarto, fecha a porta e pega o elevador. Outra pessoa entra no quarto de Osvaldinho. 
Osvaldinho olha para esta pessoa e comenta:
- Que bom que você veio, meu amor. Estava com saudades!
Tereza Cristina pega um táxi. Ao andar 5min lembra que esqueceu alguma coisa. Volta ao hotel e ao entrar no quarto...  
    

FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO

Quem estava naquele vectra preto e presenciou o acidente dos irmãos e pastores Roberto e Paulo? 
Quem está do lado de fora da igreja e gravou tudo?
O que Tereza Cristina presenciou?


Não perca, dia 17, próxima quarta, o segundo capítulo de 

ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO, 
QUALQUER SEMELHANÇA COM PESSOAS, 
HISTÓRIAS OU FATOS, TERÁ SIDO, MERA COINCIDÊNCIA.

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