Doc Comparato: “Tenho um arrependimento crônico: ter largado a medicina para me tornar um autor.”

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foto: arquivo pessoal
apresenta
ENTREVISTA COLETIVA
com
Doc Comparato

“Escrever é esquecer.
A literatura é a maneira mais agradável 
de ignorar a vida.
A  música embala, 
as artes visuais animam, as artes vivas
(como a dança e a arte de representar) entretêm.
A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono;
as segundas, contudo, 
não se afastam da vida –
umas porque usam de fórmulas visíveis 
e, portanto, vitais,
outras porque vivem 
da mesma vida humana.
Não é o caso da literatura. 
Essa simula a vida.
Um romance é uma história 
do que nunca foi e
um drama é um romance 
dado sem narrativa.
Um poema é a expressão de ideias ou
de sentimentos sem linguagem 
que ninguém emprega,
pois que ninguém fala em verso.”

Fernando Pessoa



O nosso entrevistado de hoje é o autor do livro clássico:
DA CRIAÇÃO AO ROTEIRO,
editado em sete países e em quatro idiomas.
Venceu nove prêmios internacionais.

Fundou a Casa de Criação
da TV Globo.

Criou séries, minisséries, filmes, e suas personagens
 conquistaram o Brasil e o mundo por onde passaram.

O blog TV a Bordo tem a honra de receber, 
para o Entrevista Coletiva, 
um dos roteiristas mais aclamados do mundo: 
Doc Comparato.


Warlen Pontes
jornalista

WP – De todos os prêmios que recebeu, entre eles: ‘Japan Award for Television’, o ‘Daad’ (Deuchst Academic Arte Development), o ‘Anna Magnani’, na Itália e a Medalha de Ouro do ‘New York Film and Television Festival’, qual você destacaria?

DC – Medalha de Ouro do ‘New York Film and Television Festival’, pela minissérie ‘Lampião e Maria Bonita’. Naquele tempo não existia o EMMY e era tudo junto, os americanos e os estrangeiros.

Vinícius Luiz
roteirista

VL – Doc, tudo bem? Prazer imenso. Primeiro gostaria de parabenizá-lo por ‘Lampião e Maria Bonita’, em parceria com o Aguinaldo Silva, um clássico da dramaturgia brasileira e, para mim, um das maiores minisséries de todos os tempos. De todos os seus trabalhos, qual você classificaria como o mais importante de sua carreira? Você tem vontade de produzir algo para TV novamente? Grande abraço.

DC – Meu trabalho com o Gabriel Garcia Marquez na minissérie ‘Me alquilo para soñar’, transmitida na Europa, que mudou minha trajetória de vida. Fiquei quase 20 anos fora do Brasil. Agora estou de volta e já tenho projetos para a televisão brasileira que estão em fase de negociação.

Michel Castellar
roteirista

MC – Li seu livro ‘Da Criação ao Roteiro’ que é praticamente uma bíblia sobre roteiro de cinema e TV e, primeiramente, quero parabenizá-lo por esse trabalho. O que o senhor acha do futuro da teledramaturgia? Será que a novela vai acabar, ficar enxuta, virar uma minissérie, ou a televisão, em geral, será engolida pela internet e o gênero telenovela perderá o seu lugar para as chamadas ‘webséries’?

DC – Falo sobre esses temas no meu livro. Todavia, creio que cada novo produto de comunicação de massa que se coloca no mercado transforma os precedentes e recua até se adaptar ao mercado. Por exemplo, a influência da televisão sobre o cinema, que passou a ter cenas de impacto no seu início e até cenas em suspenso para que o cinema possa ser transmitido na televisão com intervalos. Outro aspecto técnico é que os longshots (panorâmicas) estão cada vez mais econômicos em qualquer filme, pois as televisões requerem closes e travellings. A tela da televisão minimiza a imagem enquanto a do cinema maximiza. Outra questão é que a televisão é mais radiofônica que o cinema. Logo, é o rádio contaminando a TV. 



Adelmo Lessa
roteirista

AL – Doc, você foi o pioneiro no Brasil quando lançou o livro ‘Da Criação ao Roteiro’, que é referência quando se trata do assunto televisão e a escrita do roteiro, em que momento da sua carreira você pensou que existia uma necessidade de se ter um livro ou literatura que abordasse o assunto? E sobre a publicidade dentro da novela, vamos dizer, fazendo parte da cena, até que ponto ela pode ir, e se atrapalha o desenvolvimento da  história? 

DC – Como não existiam livros sobre dramaturgia e roteiro, estudei e escrevi o livro para mim. Para meu autoconhecimento. Atualmente ele está editado em sete países e quatro idiomas. Quanto ao merchandising não sou contra, afinal só existe o sistema capitalista no mundo. Quando é de bom tom e discreto, não atrapalha nada. Por acaso, nunca fiz merchandising em minhas obras.




Warlen Pontes
jornalista

WP – Um novelista famoso prepara uma oficina com roteiristas (novos e veteranos) para elaborar e desenvolver projetos de seriados para a televisão, e sugere criar uma linguagem genuinamente brasileira, fugindo de modelos americanos consagrados mundialmente. Você acha possível encontrar uma linguagem genuinamente nacional? O que você pensa sobre isso?

DC – Desculpe novamente, mas a estrutura dos seriados brasileiros e das minisséries brasileiras foram desenhadas por mim na Casa de Criação, e estão no meu livro ‘Da Criação ao Roteiro’.

foto: arquivo pessoal
Doc Comparato e o escritor 
Gabriel Garcia Marquez (Gabo).


Daniel Pilotto
professor de Educação Artística

DP – Doc, muitos autores em entrevistas recentes costumam ressaltar que o modelo novela, assim como conhecemos, já está desgastado, e para contribuir com isso, a nova geração de autores que chega à TV, também parece querer se distanciar deste formato estabelecido, introduzindo na teledramaturgia um ritmo mais parecido com os seriados americanos do que com as nossas novelas tradicionais. Acha que a novela está nessa crise? Acredita que devemos perder esta nossa característica tão genuína e autêntica de contar uma história?

DC – Primeiro a telenovela não é de propriedade brasileira. É de origem francesa, e depois cubana e americana. Que eu saiba, só duas emissoras fazem novelas brasileiras. As outras passam novelas mexicanas, persas, turcas, etc. As novas gerações são mais focadas e a telenovela brasileira tende a ter uma dramaturgia diluída e repetitiva. É extremamente restritivo e pobre que a cultura brasileira tenha como suporte a telenovela. 

Carla Giffoni
jornalista



CG – Como analisa a atual situação da televisão aberta brasileira, principalmente, as novelas? Como competir com diferentes plataformas e ter um público fiel como era antigamente?

DC – Como a pergunta já diz, o público de antigamente. Atualmente são inúmeros os meios de comunicação e a tal fidelidade, creio que era mais por falta de opção do que escolha.

Antônio Costa
roteirista

AC – Nos dias de hoje, onde criou-se a concepção de que tudo tem que ser rápido na TV, ainda existe espaço para minisséries do tipo ‘Padre Cícero’ ou ‘O Tempo e o Vento’?

DC – O rápido que está se referindo, provavelmente, significa cenas curtas, entrecortadas, típicas de telenovela. É o chamado falso ritmo. As minisséries que citou, de minha autoria, tiveram audiências excelentes. O que é importante tanto no teatro, quanto no cinema e na televisão é o tempo dramático, que independe do tamanho da cena.

“Quanto ao merchandising não sou contra, 
afinal só existe o sistema capitalista no mundo. 
Quando é de bom tom e discreto, 
não atrapalha nada. Por acaso, 
nunca fiz merchandising 
em minhas obras.”


Warlen Pontes
jornalista

WP – Você acompanha alguma novela? Qual foi a novela que você acompanhou do início ao fim?

DC – Não sou noveleiro. Todavia, admiro e acompanho as novelas do Gilberto Braga. Também ‘Avenida Brasil’, de João Emanuel Carneiro. Além de ‘Os Mutantes’, do Tiago Santiago, já que fiz parte do núcleo criativo. Adorava as do Bráulio Pedroso. Não posso deixar de citar a Gloria Perez e o Sílvio de Abreu por possuírem estilos próprios.

Tom Dutra
roteirista

TD – Nas últimas novelas de época da Globo, personagens do início do século XX tratam os pais ou pessoas mais velhas por você e as mulheres exigem direitos que só começaram a ser conquistados depois dos anos 1960. Como autor de clássicos de época da televisão brasileira como ‘O Tempo e o Vento’ e ‘A, E, I, O Urca’, em que se via um grande trabalho de pesquisa de modos, costumes e diálogos, como avalia a modernização de temas e linguagem das atuais produções de época?

DC – Faço sempre um estudo linguístico, geográfico, político e reservo palavras para a seleção vocabular que vou utilizar. Depois salpico essas palavras no texto e retiro pronomes e gerúndios. Até certo ponto você tem razão. Outro dia, numa novela passada no Egito antigo, um soldado falou para o outro: “Tô pegando aquela escrava”. Infelizmente nosso nível cultural é baixo.

Warlen Pontes
jornalista

WP – Você continua escrevendo a lápis, ou se rendeu aos desktops e notebooks da era moderna?

DC – Tenho quatro originais escritos a lápis guardados como memória. Atualmente trabalho com assistentes e dito. Sou disléxico leve e quase fui reprovado em português por duas vezes. Meu pensamento é mais rápido que o teclado. E perco o fio da meada.

WP – Qual foi o roteiro mais caro que vendeu, e por quanto vendeu?

DC – Abrigo-me da quinta emenda da Constituição Americana que tenho o direito de ficar calado. Cito a Constituição Americana porque ela só tem 22 emendas, tipo os dez mandamentos. A brasileira é um queijo suíço cheio de buracos; existe uma lei e em seguida, uma contralei dela mesma. Nossa justiça não é civilizada. Está deteriorada.


Michel Castellar
roteirista

MC – Ao contrário das emissoras de TV do Brasil, emissoras de Portugal, via produtoras independentes, como a Plural Entertainment, aceitam originais (argumentos e roteiros de novelas e telefilmes), de não contratados pela emissora, incluindo obras de brasileiros. Gostaria de saber o porquê que as emissoras brasileiras são tão fechadas para quem quer escrever novelas ou outros produtos de teledramaturgia? E, sabes se algum brasileiro teve êxito em enviar obras para o mercado de Portugal ou países latinos, como a Colômbia, que também recebe originais de não contratados? Esse esquema entra na questão do ‘Direito Autoral ou Patrimonial’? Em suma, existe venda dos argumentos, sem que mais tarde o roteirista receba os royalties da obra de sua autoria que foi produzida?

DC – O mecanismo de direito autoral no Brasil é o reflexo do Brasil, monopolista e não respeita a Convenção de Genebra sobre direitos autorais que o Brasil firmou. Recebo direitos de minhas obras na Espanha, Portugal, Argentina, México… No Brasil, nada. Mesmo tendo um site Doc Comparato, minhas obras brasileiras são pirateadas. As estrangeiras, não. Isso reflete o sistema corrupto que nos abriga, tanto no autoral como o patrimonial. O Brasil não possui uma TV pública de peso, como em todos os países civilizados. Também as emissoras de sinal aberto, verdade seja dita, com exceção da Rede Globo e do SBT, vendem seus horários para cultos religiosos, o que é um absurdo, pois as TV’s são concessões do Estado, em nome do povo, para refletir nossa realidade e, ao mesmo tempo, ser janela para o mundo. É sempre bom lembrar que o estado brasileiro é laico, e esses programas religiosos são questionáveis. Para isso existe a TV a cabo.

Warlen Pontes
jornalista

WP – Para que ator ou atriz brasileiro criaria uma personagem? E ator e atriz estrangeiro?

DC – Acho a pergunta injusta. Mas posso adiantar que meus personagens na minha imaginação são vivos, mortos, estrangeiros. Tenho todo um elenco mundial na minha cabeça, até do cinema mudo.

WP – O que é necessário para ser um bom roteirista?

DC – No meu livro ‘Da Criação ao Roteiro’, digo isso. Indico as quatro qualidades do processo criativo: concentração, autoconfiança, talento e a leitura da sua memória. E, por fim, a inspiração: o mistério de ser capturado por uma história.



#DocComparatoNoTVaBordo

foto: arquivo pessoal

Luiz Felipe Loureiro Comparato
Doc Comparato
Médico, dramaturgo,
roteirista e escritor.
3 de novembro de 1949
Rio de Janeiro

JOGO RÁPIDO

Ator
Tarcísio Meira foi brilhante em
‘O Tempo e o Vento’

Atriz
As irmãs Comparato: Bianca e Lorena.
Não quero causar problemas domésticos.

Cantor
Frank Sinatra

Cantora
Elis Regina e Maria Rita

Novela
‘O Cafona’, de Bráulio Pedroso.

Minissérie
‘Lampião e Maria Bonita’

Série
‘Plantão de Polícia’

Filme
Cidadão Kane‘, Orson Welles.

Escritorores
Garcia Marquez, Leonardo Padura,
Jorge Luis Borges, Machado de Assis,
Rubens Fonseca, os Veríssimos.

Poetas
Fernando Pessoa e 
Carlos Drummond de Andrade

Livro de cabeceira
Sempre tenho um livro de cabeceira.
O atual é ‘Zero’, do Umberto Eco.

Música da sua vida
‘Águas de Março’, de Tom Jobim.


Cena memorável da televisão
O homem pisando na lua.

Mídias sociais
Odeio! Não fazem parte da minha geração, 
mas uso diariamente todas elas 
por necessidade.

Defeito
São tantos que prefiro não citar nenhum.

Qualidade
Não me divido em positivo ou negativo.
Sou o que sou.

Arrependimento
Tenho um arrependimento crônico: ter 
largado a medicina para me tornar um autor.

Se fosse voltar ao tempo, para que época
gostaria de voltar?
Anos 1970, em Londres. 
Pela juventude e jovialidade.

Ditado, frase ou verso
“Tudo racha, quebra e passa”, um ditado francês.

Doc por Doc
Sou um mistério. Tem dias que sou 
Luiz Felipe (meu nome verdadeiro), outros,
sou o Doc (nome artístico).

Mensagem aos fãs
Acreditem nos seus sonhos!
Mas aviso que correm alto risco
de se arrepender.

da entrevista com Doc Comparato


Leia entrevista coletiva
com o autor

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