Vivian de Oliveira: “Aprendi a exercitar a fé na prática como os personagens de ‘Os Dez Mandamentos’. Viver não pelas circunstâncias, nem pelo que vejo ou sinto, mas pelo que creio.”

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foto: arquivo pessoal
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Entrevista Especial
com
Vivian de Oliveira

por Warlen Pontes
warlenpontes@hotmail.com
A nossa entrevista de hoje é com autora que conquistou o Brasil com personagens que resgataram valores eternos: fé, amizade, amor, gratidão e esperança. A paulistana Vivian de Oliveira, durante os últimos dois anos, dedicou de oito a dez horas do seu dia, para escrever o maior sucesso da TV brasileira em 2015: Os Dez Mandamentos.

Na primeira parte desta matéria, Vivian conta, entre outras coisas, sobre o início da carreira, os desafios de encarar uma nova temporada da saga de Moisés, além do seu processo de criação.

Na segunda parte, Vivian responde perguntas de alguns atores do elenco de ‘Os Dez Mandamentos’, e, com exclusividade, você vai ter acesso ao script da cena que bateu todos os recordes de audiência para a Record: a abertura do Mar Vermelho.

Senhoras e senhores, Vivian de Oliveira.

TVaBordo: Por que resolveu seguir a carreira de novelista? Como tudo aconteceu?

Vivian – Sempre gostei de escrever, desde criança. Ia bem nas redações da escola, era algo muito natural. Achei que fosse seguir a carreira de jornalista como meus pais, mas percebi que gostava de criar e contar histórias. Por isso parti para a ficção. Comecei trabalhando na linha de shows, em TV. Depois trabalhei em produtoras, escrevendo vídeos institucionais, documentários e publicidade, até fazer o curso de cinema nos Estados Unidos. Quando voltei, a Record estava montando um núcleo de teledramaturgia em São Paulo e eu comecei a fazer novela pela primeira vez como colaboradora do autor Ronaldo Ciambroni. 

TVaBordo – Com quantos anos escreveu a sua primeira história?

Vivian – Minhas primeiras histórias foram escritas para livro. Escrevi um livro que tinha uma heroína cigana, mas nunca publiquei. Devia ter uns 18 anos, na época. Era romance com aventura. Depois escrevi um roteiro para cinema sobre os anos 1960. Escrevi também um roteiro sobre os pracinhas brasileiros que foram para a guerra. Mas nada disso saiu do papel. Escrevia também muitas crônicas e contos.

TVaBordo – Quais as novelas preferidas da Vivian de Oliveira?

Vivian – Gostei bastante de ‘Vale Tudo’, ‘Senhora do Destino’, ‘Essas Mulheres’, ‘Vidas Opostas’, ‘A Escrava Isaura’. São histórias fortes, marcantes, recheadas de conflitos e frescor. Além dos personagens inesquecíveis que apresentaram.

TVaBordo – O que você prefere escrever: novela inspirada na Bíblia, novela de época ou novela contemporânea? Afinal, quando vamos ver uma novela escrita pela Vivian de Oliveira passada nos dias atuais?

Vivian – Gosto de escrever boas histórias, independente do formato. As novelas bíblicas surgiram na minha vida como um grande desafio e sou muito grata por essa oportunidade. Com o tempo fui adquirindo know how de como escrevê-las, de como fazer uma boa adaptação, tirando da Bíblia a essência do que queria contar sem comprometer o conteúdo original. Sou uma autora muito voltada para pesquisa. Gosto de desvendar outros pensamentos, épocas e universos. Não sei quando terei a chance de escrever algo para os dias atuais. Talvez, em breve. Quem sabe?

TVaBordo – O que é necessário para ser um bom roteirista?

Vivian – Para ser um bom contador de histórias, é preciso amar o ser humano, sem ressalvas ou preconceitos. O bom roteirista, que é antes de tudo um contador de histórias, deve também buscar boas referências em literatura, teatro, cinema e TV. Desenvolver uma bagagem cultural e visual. É importante também dominar o mínimo necessário das ferramentas de roteiro. No caso de telenovela, saber planejar uma história, estruturar os capítulos (escaletas), desenhar bem as cenas, montar trilhas, entre outras coisas. E praticar muito. Escrevemos cada vez melhor com o passar do tempo.


TVaBordo – Imaginava em seus melhores sonhos que OS DEZ MANDAMENTOS fosse fazer tanto sucesso e desbancar os principais produtos da líder (Jornal Nacional e A Regra do Jogo) fato esse histórico? Qual é o segredo do sucesso da jornada de Moisés?

Vivian – Imaginava que seria um grande sucesso. Sabia que era uma trama forte e bela. Mas realmente, os resultados superaram minhas expectativas.
Creio que a saga de Moisés fala de muitos valores eternos: fé, amizade, amor, gratidão, esperança… Valores um pouco esquecidos nos dias de hoje. É uma novela que retrata pessoas dispostas a tudo por um ideal, pelo sonho da liberdade e de dias melhores. Vivemos num tempo em que há muita superficialidade nas relações. Estamos acomodados e nos sentimos desamparados, muitas vezes. O público ao ver um povo lutando com tanta garra para sair da zona de conforto, provoca um desejo de fazer o mesmo. A novela fez muita gente repensar a vida, os planos, desenterrar velhos sonhos… ‘Os Dez Mandamentos’ mexeu com verdades existenciais inerentes ao ser humano, mas que estavam adormecidas.

TVaBordo – Qual é a importância das histórias da Bíblia para a teledramaturgia brasileira?

Vivian – É fato que as histórias bíblicas criaram um novo gênero na teledramaturgia brasileira e revolucionaram o formato. É um nicho relativamente novo, mas que já teve um grande impacto na forma de escrever novelas. Apesar de serem bíblicas, são histórias vibrantes, ágeis e que possuem todos os elementos clássicos do folhetim. Por isso agradam tanto. Apesar de serem histórias que se passam em um outro período histórico, falam de amor, ódio, ganância, poder, ambição, paixões proibidas, traição, enfim, são ingredientes e conflitos presentes nos dias atuais e facilmente percebidos pelo público. 

A novela fez muita gente repensar a vida, 
os planos, desenterrar velhos sonhos… 
‘Os Dez Mandamentos’ mexeu com verdades 
existenciais inerentes ao ser humano, 
mas que estavam adormecidas.

TVaBordo – A princípio, OS DEZ seria uma minissérie, houve entrega de sinopse como minissérie? Depois foi decidido que seria uma novela, logicamente, essa sinopse foi modificada e outros elementos agregados ao enredo original. Que outros elementos foram inseridos na sinopse da novela que não constavam na sinopse da minissérie? Quando estreou, quantos capítulos já estavam escritos?

Vivian – Exato. ODM foi criada para ser uma minissérie de 40 capítulos. Na  verdade, os personagens e as tramas eram praticamente as mesmas na sinopse original. O que fiz foi ampliar tudo, contar de outra forma o que já estava planejado. A novela estreou com 80 capítulos escritos.
TVaBordo – Com quantos colaboradores você trabalha? Como é o seu método de trabalho junto aos seus ‘escribas’? Todos passeiam por todos os núcleos ou você designa determinado escritor para cada um?


Vivian
– Costumava trabalhar apenas com três roteiristas, mas com o ritmo  intenso de uma novela, precisei de um grupo maior. Trabalhei com cinco colaboradores em ODM: Emilio Boechat, Paula Richard, Joaquim Assis, Gabriel Carneiro e Alexandre Teixeira. Gosto de contar também com o apoio de uma equipe de pesquisadores. Irene Bosisio foi minha pesquisadora. Tivemos o auxílio de três consultores e historiadores feras: Marcella Castor, Maurício Santos e Márcio Santanna.
Escrevo diariamente as escaletas e distribuo as cenas entre os escritores da equipe. Minhas escaletas são muito detalhadas e bem próximas do que será o capítulo final. Geralmente, faço rodízio entre os colaboradores em relação aos núcleos da novela, mas quando percebo maior afinidade de um roteirista com certos personagens, mantenho a trama com ele. De vez em quando, mudo. Alguns são melhores em cenas de humor, outros em cenas de emoção, de ação, e por aí, vai. Vou dosando bem a coisa toda. Depois do capítulo escrito, a equipe revisa o texto e eu faço a redação final. 

TVaBordo – Considero a Yunet a melhor vilã do ano e, também, uma das melhores da teledramaturgia nacional. A personagem não existiu na história bíblica, mas exerceu papel fundamental no enredo do folhetim; você imaginava que Yunet fizesse tanto sucesso? O retorno como ‘mendiga’ já estava previsto ou foi resposta de ‘oração inspiradora’? 


Vivian
– Yunet realmente foi maravilhosa. Adorava a personagem. Ela fazia suas maldades, mas era muito divertida e tinha suas motivações. Quando criei Yunet, minha intenção era matá-la na sétima praga: chuva de granizo e fogo, como aconteceu de fato. Só que a novela não teria 170 capítulos no início. Ela seria desmascarada, expulsa e logo depois morta. Também tinha planejado que Yunet só seria desmascarada depois da passagem de tempo em que Moisés volta ao palácio e aconteciam as pragas. Mas com o desenrolar da novela, senti a necessidade de desmascará-la antes da passagem de tempo. Seria irreal que aquela mulher fizesse tantas maldades por tanto tempo e ninguém percebesse nada. Por isso, decidi que ela seria expulsa no casamento da filha. Em função disso, Yunet ficou esse tempo mendiga. Não estava na sinopse original, mas foi a melhor saída. Como não queria que ela morresse sem fazer antes uma grande maldade, dei um jeito de colocá-la de novo no palácio. E assim, ela aprontou mais algumas.


foto: Divulgação / Record

Adriana Garambone
 como Yunet
TVaBordo – Vamos falar de liberdade na hora de escrever. Existem ‘dez mandamentos’ para escrever a novela ou você possui total liberdade na hora de escrever os diálogos? É verdade que há uma supervisão da Cristiane Cardoso ou de algum bispo ligado à Igreja Universal?


Vivian
– Eu tenho muita liberdade para escrever, não há restrições. Sim, a Cristiane Cardoso e outras pessoas ligadas à Record leem os capítulos, como acontece em qualquer emissora de televisão. Mas não há intervenção na minha criação.

TVaBordo – Quanto de inspiração e transpiração na hora de criar? Você ora a Deus antes de dar início aos trabalhos ou a sua relação com a obra é estritamente técnica?


Vivian
– Há um pouco das duas coisas. Muita transpiração, é verdade. Independente se nos sentimos inspirados ou não, há um trabalho diário e intenso a ser feito. 
Minha relação com Deus é antiga. Tenho o hábito de orar por tudo. Orei antes de responder essa entrevista, por exemplo. Oro ao me levantar, ao me deitar, antes das refeições, no trânsito, etc. E, claro, que com a novela não poderia ser diferente. Sempre peço inspiração a Deus, revelação e  capacitação. Peço também para que Ele renove minhas forças, me sustente e me ajude a seguir em frente. Novela é um tipo de trabalho que suga as energias. Além de ser mental, é um trabalho que exige muito esforço físico também. Chega a beirar à exaustão, algumas vezes. Mas aí vem a mão de Deus e me renova dia-após-dia. O apoio de minha família também é fundamental. Ou teria mudado de carreira
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TVaBordo – Alguma vez visitou o set de OS DEZ MANDAMENTOS? Como é a sua relação com o elenco? Existe troca de e-mails com ele? Você conversa com algum ator ou atriz, ou não existe essa abertura?


Vivian
– Visito o set poucas vezes porque não há tempo. Enquanto eles gravam, estou escrevendo. Tenho uma relação boa com o elenco. Fiquei muito satisfeita com a escalação de ODM. Todos estavam maravilhosos em cena. Meu contato com os atores não é muito frequente. Dou abertura, mas realmente a falta de tempo é enorme. Em alguns momentos, eles me procuram ou eu os procuro, trocamos impressões, fazemos alguns acertos, mas não é algo corriqueiro. O retorno do elenco tem sido muito bom. Isso me ajuda também a avançar.



foto: Divulgação / Record

Denise Del Vecchio
como Joquebede
TVaBordo – Qual é a personagem de OS DEZ que mais se identifica?

Vivian
– Essa pergunta é muito difícil. Tenho muitas personagens preferidas (risos). Entre tantas personagens que me tocaram fundo, Joquebede é especial. Muito do que ela fala sobre fé, tomo para minha própria vida.

“Novela é um tipo de trabalho que suga as energias. 
Além de ser mental, é um trabalho que exige 
muito esforço físico também. 
Chega a beirar à exaustão, algumas vezes. 
Mas aí vem a mão de Deus e me renova dia-após-dia. 
O apoio de minha família também é fundamental. 
Ou teria mudado de carreira”
TVaBordo – Quais foram as cenas mais difíceis de se escrever?


Vivian
– Mais uma vez, difícil escolher algumas poucas cenas. O que é bastante desafiador é escrever cenas com efeitos especiais com muita antecedência. A sequência do Mar Vermelho, por exemplo, foi escrita um ano antes ou não daria tempo de ficar pronta por conta dos efeitos. Mas na época, o contexto dos personagens era outro. E depois é difícil encaixar o que já foi escrito e gravado com o que está acontecendo no momento em que a cena realmente vai ao ar.
A praga da chuva de granizo e fogo, por exemplo, já estava gravada quando inventei o quase-enforcamento de Joquebede. Isso mudou muito a reação das personagens, a tensão de toda a sequência. Foi um trabalho árduo ajustar tudo direitinho, porque não daria tempo de refazer o que já estava pronto.


#OsDezMandamentos
Nova temporada
TVaBordo – Qual foi o maior desafio para escrever a segunda temporada?


Vivian
– Vencer o cansaço. Estava exausta depois de escrever 170 capítulos com minha equipe e não havia nada planejado. A Record pediu uma continuação, mas vi que não funcionaria se a trama apenas continuasse com os hebreus no deserto. Precisaria de novos conflitos, reviravoltas e personagens. Criei uma nova sinopse em menos de um mês e não tive tempo para planejar as novas tramas como costumo fazer. Foi tudo na raça.

TVaBordo – Qual foi a personagem ou as personagens que mais a surpreenderam na segunda temporada?


Vivian
– Já sabia que Corá teria seu grande e esperado destaque. Ele foi o grande vilão da nova temporada. Adorei também ter a oportunidade de voltar com Jetro e as irmãs de Zípora. Os reinos e seus novos vilões também foram gratas surpresas.

TVaBordo – Qual foi a maior lição que você aprendeu escrevendo ‘Os Dez Mandamentos’?

Vivian
– Aprendi a exercitar a fé na prática como os personagens da novela. Viver não pelas circunstâncias, nem pelo que vejo ou sinto, mas pelo que creio. 



TVaBordo – Qual é a hashtag para definir ‘Os Dez Mandamentos’
Vivian – #omelhorestáporvir


Clique AQUI
e leia a segunda parte
da entrevista


foto: Munir Chatak

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