segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Alexandre Barillari: "Tácitus é mui particular, é hilário, mas com emoções à flor da pele."

entrevista
ALEXANDRE
BARILLARI
foto: arquivo pessoal

ALEXANDRE BARILLARI
E SEU MAIS NOVO 
ENCONTRO NA CARREIRA



O ator Alexandre Barillari (42), conhecido do grande público pelos papéis memoráveis em obras de destaque na nossa teledramaturgia, retorna à telinha como o audacioso Tácitus em Belaventura’, um personagem marcante, diferente de tudo que o ator já fez na carreira, um plebeu que transita entre o drama e a comédia e leva o telespectador à torcida para que o mesmo passeie por veredas repletas de alegrias, desencontros, mas também paixões arrebatadoras.  

Numa conversa descontraída, Alexandre falou do mais novo desafio que é a interessante produção da Record TV (sua casa em diversos outros trabalhos), e também sobre seus projetos paralelos. Um ator apaixonado por William Shakespeare e que teve no seu destino duas obras que foram (mesmo que indiretamente), tecidas pela magia do dramaturgo inglês: o próprio personagem de Belaventura que tem seu lado ogro, mas que se apaixona por uma mulher de casta distinta, no caso, a princesa Carmona, vivida pela magnífica Camila Rodrigues e o livro ‘O Julgamento de Otelo – O Mouro de Veneza’ que Alexandre lançará em breve numa parceria com 10 juristas e filósofos da Universidade Federal do Paraná.  

Senhoras e senhores, Alexandre Barillari:   

Xandy Novaski:  Você está para lançar, junto com outros autores, um livro que é uma edição comemorativa dos 400 anos de Shakespeare. Fale um pouco sobre a experiência. 
Alexandre Barillari: O livro é uma reunião de ensaios de grandes juristas, como José Calvo, Desembargador do Supremo Tribunal de Andaluzia que a Universidade Federal do Paraná reuniu numa leitura das obras de Shakespeare no ano passado, quando celebramos os quatrocentos anos da morte do bardo inglês. O mundo ocidental festejou a longevidade do dramaturgo grandiosamente, e a universidade, através da professora, doutora, Liana Leão – que também fora discípula da Barbara - encabeçou este projeto e me convidou. Os bárbaros encontros do Cosme Velho que tive com Heliodora fervilharam na minha memória àquela noite; lembro de ter pedido a ela o seu imaginário emprestado, o seu manancial, e a plateia foi se fazendo exultante, entusiasmada com o fato de Shakespeare estar tão perto, tão em todo lugar, tão ao alcance de todos. Falei de casos que muitas vezes não estão nos livros, mas que eu havia guardado no melhor recanto das minhas memórias. Sei que fiz do autor erudito, insuportável, clássico, em um piscar de olhos, um sujeito remoçado, vigoroso e perigosamente sedutor. Bom, dali surgiu o convite para escrever um capítulo sobre um julgamento virtual de Otelo, a tragédia do mouro que mata Desdêmona julgando-a traidora, e Desdêmona era inocente. Dei ao ensaio o título de “Quando Shakespeare vinha nos visitar no Cosme Velho”, numa alusão, obviamente, aos bárbaros encontros com Barbara Heliodora, mas também porque conto um pouco sobre o julgamento que o nosso Supremo Tribunal Federal fez de Capitu, personagem da obra-prima de Machado de Assis, cuja antonomásia era de o Bruxo do Cosme Velho, numa mostra irrefutável da mais pura sincronicidade. O lançamento será agora em outubro, no Tribunal do Júri, em Curitiba e, já para 2018, escreveremos sobre Julio Cesar, e tudo isso nada mais tem sido do que a grande realização de um sonho.

foto: reprodução

Alexandre Barillari como
Antônio em 'Salsa & Merengue',
TV Globo - 1996/1997

Xandy Novaski:  Em 2016 você completou 20 anos de sua estreia na TV que aconteceu na novela Salsa & Merengue. Qual é o balanço que você faz dessa trajetória no audiovisual? 
Alexandre Barillari: Tudo começa quando eu ainda era criança, e meus pais me levaram para a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo nos anos 1980. Não tinha a menor ideia de que isso fosse um ofício, mas eu cresci ouvindo Não faça disso a sua profissão’. Foi exatamente o avesso do que aprendi que o destino quis que acontecesse. Eu tinha 16 anos quando entrei para a faculdade de Arquitetura na UFRJ, muito para saciar a vontade de meus pais de que eu tivesse uma profissão um pouco mais aceitável e menos, digamos, ousada. E tão logo eu fiz isso, ou seja, entrei para faculdade, eu me inscrevi, à noite, às escondidas na Escola de Artes Cênicas da Rosane Gofman, uma escola profissionalizante de atores que havia aqui no Rio, e ali o meu sonho teimoso começou a se realizar, a tomar forma, tomar corpo, tomar vulto. E o tal sonho parecia a mim, menino, tão proibido que meus pais só descobriram quando eu estreei no teatro, em 1992, através de uma foto do espetáculo num jornal aqui da cidade. Claro que foram dias difíceis para todos os lados, primeiro porque havia muito amor envolvido, sempre houve, e foi difícil negociar esses desejos. A minha sorte é que logo depois surge Salsa e Merengue, minha primeira novela em que eu fiz o Antonio, um príncipe de bailes de debutante de um buffet do subúrbio carioca, que não dançava valsa, mas salsa. Foi um começo espetacular, uma novela solar, iluminada que não me esquece. Meus pais se viram, decerto, em um dilema, afinal o público me recebeu com tanto carinho e por que não seria assim com eles? Foi uma questão de tempo para que eles se tornassem meus maiores fãs.  Hoje, olhando para estes vinte e cinco anos desde a estreia de Salsa e Merengue, fico muitíssimo feliz, em especial, por ter conseguido desfazer a tipificação a que, em geral, estamos expostos na televisão. Walcyr Carrasco foi o maior responsável por isso quando me deu de presente o Guto, o grande vilão de Alma Gêmea. Lembro de ter dito a ele quando me fez o convite, que o meu desejo seria me 'irreconhecer' naquele papel. Me enfiei no presídio Ary Franco para um laboratório inesquecível e, de fato, as pessoas diziam: não é você! Quando a novela acabou, a única coisa que eu podia dizer ao Walcyr foi: você não me deu um personagem, você me deu uma carreira! Depois disso, fui para a RecordTV onde estou há dez anos, e a alegria tem sido longeva, afinal, eu tenho construído uma galeria de personagens mui distintos. Isso, para um ator é como tirar a sorte grande. Tácitus é mui particular, é hilário, mas com emoções à flor da pele. Se confrontarmos uma foto do Guto nas horas de seu desprezo pela vida e pelos homens, com uma foto do Tácitus, nas horas em que sonha com o amor da princesa, posso dizer que aquele sonho teimoso do menino que lutou contra os anseios dos pais, me trouxe à mais pura e intensa satisfação.     

Xandy Novaski:  Diante de sua experiência na televisão, o que diria para aqueles que buscam 'um lugar ao sol' na carreira? 
Alexandre Barillari: Agora você me faz uma pergunta especialmente difícil. ‘That is the question (Essa é a questão). Eu não tenho nada a dizer. Eu não estimulo ninguém a essa profissão. Cada aspirante a este ofício, antes de qualquer coisa, precisa saber que o caminho é árduo. Como diz o grande Ziraldo É uma profissão em que muitas vezes a gente não ganha o suficiente para comprar à vista e nem regularmente para se comprar a prazo’. O que deve nos mover é a paixão, até no sentido clássico de luta pela vida mesmo. É essa luta, esse combate, o leão que você tem que matar a cada trabalho, a cada tela em branco que você precisa preencher que me enfara. Eu acho muito adversa uma profissão em que um tremendo sucesso não garante outro de igual. Quando é exitosa a sua experiência, decerto, creio que é porque Deus quis, pois conseguir se concentrar, conseguir dizer suas linhas cercado de tanta gente num estúdio ruidoso ao extremo, garanto que é tarefa que só se realiza com bênçãos. Eu penso que é uma profissão para os eleitos, eu me sinto eleito, me sinto escolhido, pois vivo disso já há muitos anos; no entanto, não me sinto à cômodo de incitar ninguém a este combate. Eu mesmo, como digo sempre, tive que lutar contra tantos revezes, até que houvesse um sol depois da tempestade, e que fúria havia neste temporal de instabilidades e vicissitudes com que me deparei desde tão jovem. Para ser sincero, nada há de menos erótico do que um ator à procura de emprego, e isso, garanto, só pode dizer quem sabe bem onde lhe aperta o calo.

foto: reprodução

Xandy Novaski:  O Tácitus é um rapaz destemido. Você poderia nos adiantar quais serão suas façanhas para conquistar o amor da princesa Carmona? 
Alexandre Barilarri: A grande arma que o Tácitus tem para conquistar o coração da Carmona é o ‘amor genuíno’. Este personagem respira franqueza, autenticidade e, óbvio, uma genuinidade que lhe é mui particular. Vimos isso logo no primeiro encontro porque, afinal de contas, são pessoas de classes muito diferentes; as perspectivas do trânsito social àquela época foram praticamente inexistentes e inexequíveis na História até Henrique VIII, que nem é mais medieval, de modo que, advindo de uma Vila dos Plebeus, seria difícil, praticamente impossível para Tácitus atinar com todos os protocolos, digo, as mesuras de como se aproximar de uma princesa, como cumprimentá-la e, assim, é o desejo, o sentimento que servem de propulsão para achegar-se à herdeira do trono e ao seu coração. Na realidade, eu penso que, independente de qualquer classe, ainda que nesse caso isso vá se tornar um grande obstáculo, quando um verdadeiro amor bate à nossa porta, eu acho que a única e primeira coisa que temos a dizer é ‘Adeus prudência!’.   

Xandy Novaski:  Carmona é uma mulher blindada pela corte e Tácitus um homem rústico. Como você recebe o que seria, vamos dizer assim, ‘semelhanças de tais personagens’ com a obra 'A Megera Domada'? 
Alexandre Barillari: Esta é uma seara sobre a qual posso discorrer confortavelmente, porque nos últimos dez anos da vida da Barbara Heliodora, até 2015, quando faleceu, pude usufruir de sua companhia e debruçar-me sobre o seu manancial de conhecimento, não apenas sobre Shakespeare, sobre tudo. Foi uma das mulheres que mudaram minha vida. Heliodora, uma das maiores autoridades do mundo em Shakespeare, dizia que, se nas tragédias o que há inevitavelmente no fim é a morte; nas comédias, em Shakespeare, o que há inevitavelmente no fim é o enlace, é o casamento. Em ‘A Megera Domada’ não seria diferente, ainda que, para se chegar a este fim, perpasse pela guerra dos sexos, pelo amor que tem algum empecilho, algum obstáculo, mas que irá, no entanto, terminar com um casamento e um ‘happy ending’. Não sei se o Gustavo Reiz, autor de Belaventura, irá comungar desta concepção por fim, mas, decerto, há muitas semelhanças entre os casais Tácitus e Carmona e Petruchio e Catarina. O que eu acho mais fascinante sobre o fato do invariável enlace no fim das comédias, é que a Marcha Nupcial de Mendelssohn foi composta para o ‘Sonho de uma Noite de Verão’, justamente, para o casamento da rainha das Fadas e, ainda que o fim de Tácitus seja uma surpresa, eu posso adiantar que a princesa Carmona irá sonhar com o plebeu ao som dos clarins da marcha de Mendelssohn.  

foto: Munir Chatak

Tácitus (Alexandre Barillari)
e Carmona (Camila Rodrigues) em
cena de BELAVENTURA,
Record TV - 2017/2018

Xandy Novaski:  Todos nós sabemos que novela é uma obra aberta. Nota-se ainda que Carmona e Tácitus viverão um grande amor, mesmo que proibido. Qual é a sua opinião caso esse embate seja resolvido antes de a novela terminar? Ou seja, o que imagina como rumo para seu personagem quando tudo se resolver? 
Alexandre Barillari: Eu não sei se eles ficam juntos no meio da novela, ou mesmo antes do fim, ou ainda, se viverão felizes para sempre. Isso é especulação, é apenas torcida, e é claro que a gente sempre torce! A gente torce tanto que se passaram cento e vinte e cinco anos até que o “Rei Lear”, uma das quatro grandes tragédias de Shakespeare, fosse encenada com o final infeliz que tem, isso porque as pessoas não podiam suportar tamanha infelicidade no final daquela peça. Mais de um século, então, se passou, desde o fechamento dos teatros na Inglaterra pós-elisabetana para que o Lear fosse levado à cena da forma como Shakespeare concebeu, ou seja, com uma tragédia no final, mas, voltando a Tácitus e Carmona, não há nenhum soberano ou também ninguém da família real que não tenha absoluta obsessão por dar continuidade à sua dinastia. Então, é preciso filhos. Imagino que se o amor dos dois sobreviver às rusgas e desacertos, um filho traria um alegre desfecho.     

Xandy Novaski:  Você já atuou em algumas novelas de época, gênero hoje abraçado pela Record TV com belíssimos resultados. O que uma obra épica traz de especial para o público? 
Alexandre Barillari: É verdade; certamente a maior parte dos meus trabalhos, tanto em teatro como em televisão foram personagens de épocas bastante distintas. Rei Davi, por exemplo, século X a.C; Alma Gêmea, pós-guerra, 1948; Belaventura, em algum momento entre o século V e século XV d.C, ou seja, é, de fato, um arco de trajetória extensíssima e, de  cada uma dessa épocas, surgem idiossincrasias que devemos incorporar aos personagens para que respirem de um aroma distinto. O desconhecido sempre nos interessa sobremaneira, o outro lado do muro e, creio que isso se aplica aos trabalhos de época. Ademais, a primazia dos cenários, figurinos, adereços enchem os olhos e sublinham este tal desconhecido com uma sobrecarga de significado. Por outro lado, tenho sido instigado a uma reflexão bastante pertinente: outro dia, Tácitus reclama, em uma cena, dizendo que o povo deveria ser cuidado pelos homens que estão no poder. Inevitavelmente o espectador se reconhece e se espanta com razão; afinal, a fala poderia ter sido proferida por qualquer um de nós, e lá se vão pelo menos mais de quinhentos anos desde que a Idade das Trevas termina na Europa para dar início à Luz e ao Renascimento; no entanto, as guerras por territórios persistem, a luta de classes, a disparidade do gênero, o amor impossível, a peste, as epidemias, o descaso dos governantes, a fome, a miséria e disso irrompe a grande questão: e o que mudou? Não que eu seja pessimista, muito pelo contrário, mas o peso dos fatos nos faz pelo menos céticos e disso advém a pergunta crucial, mas, no meu caso, ainda cheia de esperança: e será que vai mudar um dia?        

Xandy Novaski: Quais são seus projetos além do livro e da novela? 
Alexandre Barillari: Alguns projetos já têm um certo encaminhamento, outros são, ainda, como a palavra já diz, aquilo que é lançado para adiante e outros são apenas algumas ideias embrionárias. Além de “O Julgamento de Otelo” para este ano, já começamos a trabalhar em “Julio Cesar”, outra tragédia de Shakespeare para o ano que vem. Além disso, estou debruçado sobre um texto que escrevo para o teatro e que intitulei, ironicamente, de “Uma Aula Insuportável” e que trata de um jovem professor-nerd da universidade de Oxford que consegue convencer seus alunos de que só irão conseguir acessar as infinitas camadas da obra Shakespeare, quando abandonarem a ideia de acertar. Através da intimidade com o sujeito de Stratford-Upon-Avon, o docente inspira os alunos a perseguirem suas paixões individuais e tornarem suas vidas  extraordinárias, um pouco como Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos, mas sobre Shakespeare, sempre Ele que me move e que, de igual, me inspira.

#AlexandreBarillariNoTVaBordo

Confira chamada
do ator para BELAVENTURA






Curta

Siga

0 comentários:

Postar um comentário

Ofensas não serão publicadas.