Retrospectiva 2017 – Autismo: Dr. Alysson Muotri faz balanço do ano e mostra as perspectivas para 2018

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Retrospectiva 2017 Autismo. Perspectivas 2018: um ano que promete!

Retrospectiva 2017 autismo
Alysson Muotri uses stem cells to study the onset and potential causes of autism

Na retrospectiva da coluna AUTISMO, por meio de um vídeo, o Dr. Alysson Muotri deixa uma mensagem especial e faz um balanço das pesquisas sobre o autismo em 2017. Alysson Muotri também revela quais são as perspectivas para 2018. 

Retrospectiva 2017 autismo

A seguir, assista ao vídeo e leia logo em seguida:

Vamos refletir um pouco sobre os avanços de pesquisa com AUTISMO e o que eu acho que deve acontecer em 2018.

2017 poderia ser marcado pelo ano maternal, porque teve muita pesquisa, muito dado novo a respeito do que acontece nesse ambiente intrauterino, tanto do lado do feto, quanto do lado da mãe.

Retrospectiva 2017 autismo

Epidemiologia

Uma relação interessante que já existia, já era bem conhecida no autismo, que vem da epidemiologia mostra que existe uma correlação entre uma reação imune e uma incidência maior de autismo. Veja bem, a epidemiologia, ela traz correlação e não causa, então, a gente não quais são esse fatores, a gente sabe que existe essa correlação.

Dentre os avanços que houve em 2017, a gente observou que existem uma série de reações imunológicas que acontecem de forma intrínseca no próprio cérebro do feto isso sem influência nenhuma do ambiente, é uma coisa autônoma. Há suspeita de que essa relação imunológica aconteça nos astrócitos (que são células do cérebro também que dão apoio aos neurônios e ajudam a formar as conexões nervosas), e essa autoinflamação estaria partindo do próprio genoma, da própria constituição genética daquele indivíduo, que carrega mutações, às vezes, até somáticas, ou seja, que só acontecem em alguns pedaços do cérebro daquele indivíduo que estaria levando a uma reação imunológica. Os últimos estudos estimam que isso deve acontecer por volta de 4% dos autistas.

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Microbioma

Uma outra informação interessante é que a microbioma, aqueles organismos bactérias, micro-organismos que habitam o intestino da mãe, não do feto, poderia atenuar esse tipo de neuroinflamação. Ninguém sabe ainda qual é o mecanismo, ninguém sabe ainda se isso isso acontece realmente em humanos, porque o que foi feito em modelo experimental em camundongos, então, existe um grande salto para ver se acontece em humanos. 

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Influenza

Outra pesquisa interessante, essa é legal, porque existia aquele dado, quase que consolidado, que a influenza (a mãe adquirindo a influenza durante a gravidez) aumentava o risco do autismo, esse estudo foi replicado, aumentado-se o número de participantes, trabalhou-se com 200 mil grávidas e observou-se que as mulheres que foram infectadas por algum vírus não apresentavam maior incidência de autismo do que aquelas mães que não estavam infectadas. O link entre uma infecção nesse estágio inicial de gravidez e o maior aumento de autismo acabou se enfraquecendo, talvez não seja bem por aí.

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Antidepressivos

Outro link que foi se enfraquecendo foi o uso de antidepressivos pela mãe, teve alguns estudos que apontavam que mães (mulheres) que tomavam antidepressivos, que teria momento de chance de ter crianças autistas.  O que se mantém é o fato da mãe ser depressiva, isso continua estar correlacionado ao aumento da incidência de autismo, o que sugere de novo que existe uma base genética entre a depressão e o autismo que de alguma forma se sobrepõe, de qualquer forma, essa correlação ou esse aumento de incidência é muito baixo, muito pequeno, é significante, mas não é preocupante.

Retrospectiva 2017 autismo

Tratamentos

Ainda na fase uterina, o que se observou ao estudar o ambiente fetal, o cérebro fetal, é existe uma super proliferação de células desses estágios inicias, ou seja, as células neurais se dividem muito mais rápido, em muitos dos casos, o cérebro e a cabeça – como consequência – de algumas das crianças acabam aumentado, um dado que a gente já sabia, na verdade, de 20% a 30% de crianças autistas nascem com macroencefalia, ou seja, o cérebro é um pouco mais alargado, isso realmente acontece durante uma fase intrauterina, e algumas das crianças mantêm essa macroencefalia e em outras é transiente, acabam se ajustando com o tempo; o que é interessante é que nessas crianças que têm esse desenvolvimento dessas células, dessa super proliferação, se você fizer uma análise das redes neurais, um estudo por ressonância magnética em crianças com seis meses você já conseguiria já previr com certo nível de confiança, quem teria um autismo severo, isso é um biomarcador muito importante que surgiu na detecção de um eventual autismo severo, por que isso é importante? Porque quanto quanto antes  você detecta, mais cedo você começa o tratamento.

Retrospectiva 2017 autismo

Sequenciamento genético

A outra parte interessante é que aumentaram os estudos de sequenciamento genético de autistas, então todo ano somam-se novas iniciativas que se conheciam autistas, os números de genes encontrados têm aumentado, todo ano aumenta essa lista de genes implicados no autismo. O que interessante é quando você começa a olhar para todos esses genes em comum, você começa a ver que existem vias comuns em que eles atuam, principalmente, no primeiro e no segundo trimestre da gestação, que é justamente de genes atuam na formação cerebral.

Todas essas pesquisas de 2017 convergem para aquela ideia de que o autismo é uma condição intrauterina, o autismo começa antes do nascimento da pessoa. A gente já tinha pistas e essa evidência vem – cientificamente – corroborando e confirmando e a gente vai descobrindo quais são essas pecinhas que levam à essa ideia.

PERSPECTIVAS 2018

Para 2018 tem três partes interessantes: a primeira parte seria dos tratamentos e a validação dos tratamentos. Em 2017, por exemplo, a gente teve a notícia de que a musicoterapia não passou pelos testes estatísticos nos trabalhos iniciais, de que seriam úteis ao tratamento do autismo.

Tem uma série de outras terapias que também devem falhar, que ao se fazer uma análise científica devem mostrar uma ineficácia no tratamento do autismo. A gente continua tendo o ‘aba’ como um método consolidado. O ‘aba’ continua sendo modificado e continua sendo como vale a pena investir. Mas os outros funcionam ou não funcionam? Para a minha criança funciona, como é que é isso? Esse é o “pulo do gato”, é possível que existe uma estratificação desse autismo e a gente vai começar a entender quem que responde a qual terapia; quando você coloca todo mundo no mesmo saco vê que não tem uma significância, não ajuda a todo mundo, mas é possível que estratificando essa população, a gente acaba descobrindo para quem a musicoterapia vai funcionar, para quem a ecoterapia vai funcionar. Enquanto a gente não tiver isso, vai ser muito difícil do governo, das agências de seguro de saúde bancarem esse tipo de terapia, então, a gente vai precisar de mais pesquisa nessa área.

Novos Medicamentos

Novos medicamentos estão entrando em fase clínica, só para a Síndrome de Rett, a gente tem oito medicamentos em ensaios clínicos, isso é sem precedentes, então, estão se chegando nos ensaios clínicos, e estão entendendo quais os medicamentos que funcionam e os que não funcionam. Da mesma forma que para esses tratamentos ou terapias, os medicamentos ou a terapia farmacológica também, muitos desses vão falhar, e vão falhar pela mesma razão, por que a gente está olhando para o autismo de uma forma botando todo mundo no mesmo saco, isso vai precisar ser estratificado, quem vai fazer essa estratificação é justamente o sequenciamento genético, a gente vai definir a característica genética da pessoa, antes de você receitar um tratamento, seja comportamental ou farmacológico. Isso está cada vez mais perto da gente.

Terapia genética

Por fim, a boa notícia é a volta da terapia genética, aí tem três componentes: a primeira é a recolocação. A gente teve resultados maravilhosos para um tipo de doença rara, que é um tipo de atrofia, em que as crianças nascem com um problema genético, perda de uma enzina, que leva a essa atrofia e acaba morrendo nos primeiros anos de vida. Com a terapia genética, que já é possível fazer isso, consegue se recolocar o gene correto dentro de um vetor viral que atinge as células nervosas e fazem o “delivery” do gene correto para dentro das células, recuperando o funcionamento dessas células, recuperando a fisiologia do tecido e o comportamento da pessoa. Os dados foram impressionantes, tem criança com quatro anos que já era para estar morta (segundo a progressão dessa doença), e que já está indo para a escola. Possivelmente, a próxima doença que vai ser alvo disso vai ser a Síndrome de Rett, onde a gente tem a perda de função do gene, você só coloca o gene correto dentro do sistema nervoso e o sistema nervoso volta a funcionar. Terapia genética, o conceito é muito simples, recolocação do gene correto.

Correção do gene

Outra aplicação da terapia genética é a correção do gene, quando você não consegue colocar o gene correto da forma que deve, você tende a corrigir o erro que já está lá, ou seja, corrigir aquelas mutações. Há pouco tempo, eu mesmo falei que isso seria um pouco provável para doenças do sistema nervoso, essas enzimas não funcionam muito bem para corrigir genes que estejam em células que não dividem como os neurônios, mas, durante este ano foram feitas diversas modificações nessas enzimas para que elas consigam agora atuar dentro dessas células, dentro desses neurônios, então, abre-se uma nova perspectiva, até os próprios cientistas se surpreendem de quão rápido isso está andando.

Inativação gênica

Por fim, a ideia de inativação gênica, ou seja, às vezes você tem uma mutação que cria uma proteína ou que leva um problema que não basta você recolocar a proteína correta, você tem inativar a mutação. Uma série de autistas tem esse tipo de alterações genéticas. Para fazer isso, a gente coloca uma tecnologia considerada até antiga, porque a gente como funciona isso há muito tempo.  O que a gente nunca descobriu é como colocar isso para dentro do sistema nervoso; basta uma injeção na espinha para que esses antisenses óligos flutuem pelo líquido espinhal e atinjam o sistema nervoso, eles entram nas células nervosas, nos neurônios, nos astrócitos e fazem a inativação dos genes mutados. Existem perspectivas muito boas, existem ensaios clínicos para ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) em andamento, o próprio Don Cleveland, que é um pesquisador da Universidade da Califórnia, ganhou este ano o prêmio Breakthrough, agraciado com esse tipo de terapia, se funciona para o ELA, deve funcionar para autismo e outros casos de mutação genética também, por isso, a importância de conhecer qual é o tipo de alteração genética que está tendo para poder desenhar esse óligos que sejam específicos para aquela alteração genética.

2018 promete! Vem muita coisa interessante por aí! Acho que esse ano vai bombar. A gente está cada vez chegando mais perto de tratamentos e terapias mais efetivas e entender o que funciona e não funciona e para quem funciona.

Vamos aguardar e ficar de olho!

Feliz ano novo para vocês!

Dr. Alysson Muotri

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