Roberto Birindelli: “É a arte que nos escolhe, não o contrário.”

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entrevista
ROBERTO BIRINDELLI







FOTO: Arquivo Pessoal


No ar como o misterioso e “guardador de segredos”, Josué, da novela IMPÉRIO, Roberto Birindelli, uruguaio de Montevidéu, concedeu ao blog TV a BORDO uma entrevista recheada de histórias de um ator/diretor com quase 30 anos de carreira e, muitos trabalhos no cinema, no teatro e na TV.





Arquiteto por formação, já ministrou palestras em eventos de importância mundial, como a ECO92 e a RIO+20. Com o monólogo IL PRIMO MIRACOLO ficou 21 anos em cartaz e rodou meio-mundo, colecionando casos em mais de 400 apresentações, que você vai conhecer a partir de agora.



Senhoras e senhores, Roberto Birindelli.

TV – Por que resolveu morar no Brasil a partir dos 15 anos de idade?
RB – A situação em Montevidéu, após o Golpe Militar, era muito complicada e sem perspectivas de crescimento. As opções eram emigrar para Buenos Aires ou São Paulo. Aos 45 minutos do segundo tempo, meus pais optaram por Porto Alegre, que tem raízes bem próximas ao Uruguai.

TV – Houve alguma dificuldade em aprender o português?
RB – Cheguei sem saber falar uma palavra em português. Primeiro, o choque cultural, o bullying na escola, etc. Mas, tenho certa facilidade em aprender outras línguas. No ano seguinte, meu portunhol já estava aceitável. Depois de dois anos, havia apenas um leve sotaque.

TV – Por que escolheu a arquitetura para a sua formação acadêmica? Já a exerceu alguma vez?
RB – De criança eu quase não falava. Minha expressão era a pintura e o desenho. Entrei pra escola de artes aos cinco anos de idade e, pintei até os 15 anos de idade. Daí para a arquitetura foi um passo. Sempre foquei mais no urbanismo e no meio-ambiente. Participei da ECO 92 e, na RIO + 20. Fiz a palestra Mobilidade Urbana. Pode não parecer, mas a arquitetura meu deu muita base na cooperação artística, mesmo no trabalho de ator.

TV – Por que resolveu seguir a carreira artística?
RB – Pergunta difícil. É a arte que nos escolhe, não o contrário. Vê se este exemplo ajuda: com quatro anos de idade pintei o pôr do sol da minha janela, era o dever de casa. No dia seguinte, a professora rejeitou o trabalho, dizendo: ‘Roberto o céu é azul, não é lilás, roxo e vermelho como você pintou. ‘Naquela idade não sabia verbalizar, mas lembro de ter a sensação bem clara – o céu é como eu vejo. Pronto, estava decidido o que eu seria. Entende o processo?

TV – Bacana. Quando e como descobriu que realmente queria ser ator?
RB – ‘O veneno do escorpião’, como diz meu mestre, aos cinco anos de idade. Os efeitos apareceram mais tarde. Meus pais tinham um amigo ventríloquo, que divertia as crianças nas festas. Aquilo me maravilhava, ainda sem entender o porquê. Primeiro me dediquei à pintura, ao desenho e à escultura. Depois mímica, dança, isso durante a Faculdade de Arquitetura. Finalmente, quando já atuava na área (arquitetura), fiz a Faculdade de Artes Cênicas. Mais tarde veio o cinema e, recentemente, a TV.

foto: site Birindelli
Francesco Tucci / novela Poder Paralelo / Rede Record – 2010/2011


TV – Sofreu algum preconceito por ser estrangeiro, na escola ou no mundo artístico?
RB – Muito. Na escola, até por não falar a língua. Depois, nos grupos de artistas, isso foi se diluindo.

TV – Há um ditado italiano que diz: “o que foi duro de sofrer é doce de recordar.” Houve alguma ocasião difícil que você recorda com doçura?
RB – Os primeiros anos no Brasil foram bem duros, até em questão de subsistência. Lembro do meu pai – empreendedor, trabalhando 16h por dia – derramando lágrimas sem saber como sustentar sua empreitada. Eu estudava de manhã e trabalhava à tarde com ele. Depois de muitos anos, com as coisas já funcionando, ríamos das piores passagens.

TV – Quais as vantagens e desvantagens na vida de um ator depois dos 50 anos de idade?
RB – Não são muito diferentes das que enxergo na vida como um todo. Não tenho a mesma energia dos 20 anos de idade, mas naquela época eu corria pro lado errado! Vi um grande zagueiro, Mauro Galvão, jogar até depois dos 40 anos de idade, idade incompatível no futebol profissional. Numa entrevista, perguntaram como ele se virava pra marcar atacantes jovens e muito mais velozes quando vinha um lançamento pro setor onde ele jogava. Ele respondeu em segredo: eles não sabem onde a bola vai cair…

TV – Boa. ‘IL PRIMO MIRACOLO’ é um monólogo que ficou 21 anos em cartaz e viajou o mundo. Conte-nos sobre ele.
RB – É um trabalho fruto de um pesquisa centrada na presença cênica e na relação ator-espectador, baseada em alguns princípios básicos da Antropologia Teatral, tendo como mestres e principais influências: Eugênio Barba e Odin Teatret, da Dinamarca e, o LUME, de Campinas. Eu represento 21 personagens sem recursos de cenografia, figurino ou iluminação. Na composição, partiu-se do texto de Dario Fo, uma obra-prima da dialética, combinado com a dinâmica dos quadros de Cândido Portinari (da série Os Retirantes) para desenvolver uma elaborada linguagem visual e sonora.

Birindelli em IL PRIMO MIRACOLO 


RB – Há três momentos no espetáculo: o primeiro é surpresa e estranhamento. Uma situação engraçada que nos leva para o contexto da história que será contada. O segundo momento é de questionamento, de como é ver as coisas desde ângulos que nunca tínhamos observado. É quando vemos que somos parecidos e tão engraçados quanto as personagens do espetáculo. O terceiro momento é o da emoção. Quando descobrimos que essas figuras da história, mais do que sagradas, são humanas e, portanto, maravilhosas, como todos nós. Sagrado, significa Sacro, ou seja, ‘separado’, o que Dario Fo nesse texto é, justamente, não separa. Ele deixa essas figuras bem perto de nós.

TV – Em duas décadas de espetáculo, devem haver histórias maravilhosas para contar. Pode relatar algumas mais marcantes?
RB – Claro. Numa apresentação em especial na época do Natal, em uma escola para crianças excepcionais. Havia crianças com Síndrome de Down, em cadeiras de rodas ou com sérios problemas de motricidade que acompanhavam MIRACOLO e, aos poucos, foram trazendo seus brinquedos, dançando junto, segurando minha roupa de trabalho; uns balançavam a cadeira de rodas. Uma menina que me deu de presente uma boneca de pano, que devolvi para a escola assim que soube que era seu único brinquedo. Essa situação toda era muito forte, intensa. Outra vez numa ‘quase’ briga de uma senhora – que não aceitava uma história que falasse de Jesus, sem ser a história oficial – e um senhor na poltrona ao lado que tentava explicar a ela que a peça não falava exatamente de Jesus, mas de nosso cotidiano. Aconteceu um episódio em Estocolmo bem marcante: uma muçulmana retirou o véu que a impedia de se manifestar, correndo o risco de ser punida por esse gesto. Por fim, um outro momento inesquecível foi na Cordilheira dos Andes. Pessoas levavam seus animais para dentro do galpão onde acontecia MIRACOLO e acabou se transformando numa verdadeira manjedoura. Todos esses momentos ficaram registrados e são os que me fazem continuar, quem sabe por mais 20 anos.

NOTA TV a BORDO – IL PRIMO MIRACOLO participou de festivais, eventos e turnês em mais de 180 cidades de seis países: Lausanne, Porto Alegre, Buenos Aires, Montevidéu, Belo Horizonte, Estocolmo, Teresina, Natal, entre outras. Surpreendeu, questionou e emocionou mais de 250 mil espectadores em mais de 400 apresentações.

TV – Você atuou em mais de 30 produções no cinema entre longas e curtas. Quais são os seus preferidos e por quê?
RBA QUIEN LLAMARÍAS? Longa argentino de Martin Viaggio. Cinema argentino, roteiro bem bacana. COLEGAS, longa de Maurício Galvão. Trabalhar com três atores downs maravilhosos foi uma experiência formidável! SIMONE, longa de Juan Zapata sobre uma história real. O olhar delicado do Juan sobre uma temática GLS. Belo trabalho. MARESIA, longa de Marcos Guttmann. Trabalhar com Júlio Andrade, sempre uma delícia.

foto: Fran Rebelatto
Sequência de SIMONE, de: Juan Zapata / 2011

TV – Você tem perfil no FACEBOOK. Como lida com as redes sociais? Elas ajudam ou atrapalham?
RB – Ambas. Eu trabalho muito com o ‘face’. É quase um site onde estão todos os trabalhos que faço. Já fui convidado para vários filmes e outros trabalhos pela rede social. Muitas vezes atrapalha. Hoje a assessoria de imprensa está cada vez mais tomando conta disso.
Link da página do ator https://www.facebook.com/roberto.birindelli?fref=ts

TV – O que é mais prazeroso fazer: cinema, teatro ou TV?
RB – Pergunta difícil. Futebol, vôlei ou natação? Não há como comparar. Teatro é a realização do ator, onde somos soberanos. No cinema eternizamos os detalhes. A abrangência da TV atingindo milhares de espectadores é indiscutível.

TV – Por falar em ator, que conselhos daria para aqueles que gostariam de seguir uma carreira?
RB – Ler muuuuuuuuuuito! Estudar história e ter profunda paixão pela vida das pessoas, porque é nisso que vamos mergulhar.

TV – Vamos falar de IMPÉRIO. Como surgiu o convite para viver o Josué?
RB – Aguinaldo (Aguinaldo Silva, autor) mandou e-mail perguntando se eu toparia fazer. Quase nem acreditei!

FOTO: Arquivo pessoal
Josué / novela IMPÉRIO / Rede Globo – 2014/2015

TV – Como definiria o Josué?
RB – Josué é um homem misterioso e perigoso, um guardador de segredos; fiel, meio isolado, recluso, independente e, às vezes, violento. Não mede esforços para conseguir seus objetivos. Instintivo. Toma as decisões necessárias sem pensar muito e, sem remorsos.

TV – Alguma cena engraçada de bastidores?
RB – Nada muito engraçado, mas de parceria. Gravando em Carrancas – MG, passamos muito frio. Um ajudava o outro. Trazia cobertores, o outro chimarrão, até fomos atrás de pinga da região.

TV – Qual foi a cena mais difícil de IMPÉRIO até aqui?
RB– Toda a sequência da falsa morte do comendador. As cenas de tirar o caixão e constatar que chegou tarde.
(se você for assinante da Globo.com, é só entrar no site e rever. Abaixo, a foto que reproduzimos pelo GShow)

TV – O que ainda podemos esperar do Josué?
RB – Não sei! Pode ser que tenhamos surpresas nos capítulos finais.

TV – Hummmm, o que será que Birindelli quis dizer? É esperar para ver.

A seguir, JOGO RÁPIDO.

FOTO: Arquivo pessoal
ROBERTO FRANCISCO SCHLESINGER BIRINDELLI
Nascido em Montevidéu (Uruguai)
Em 1 de dezembro de 1962

Ator
Dustin Hoffman. Por aqui, Júlio Andrade, Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa. Tem vários!

Atriz
Dira Paes. Nesta novela tive a oportunidade de contracenar com Laura Cardoso. Nossa!

Um filme
BLADE RUNNER. Uhuuuuu! Tirei do baú!

Livro de cabeceira
Todos do Ítalo Calvino

Uma frase, um ditado, um verso
…Yo tengo tantos Hermanos, que no los puedo contar, y uma hermana muy hermosa que se llama libertad (Atahualpa Yupanqui)

Personagem que gostaria de fazer
Um andarilho que conte histórias

A música da sua vida
Querência – Vitor Ramil
https://www.youtube.com/watch?v=JP5zTILZ4os

Defeito
Empurrar com a barriga coisas que deveriam resolver agora

Qualidade
Responsabilidade

Time do coração
Grêmio

Me tira do sério
Gente autocomplacente, que não se dá o máximo de si, nem aos outros.

O presente de aniversário ideal
Um CD de música tribal ou qualquer coisa que me surpreenda.

Se pudesse viajar no tempo…
Teria dito SIM!

Sonho de consumo
Um desses carrinhos pequenos, como SMART ou MINI COOPER, que são fáceis de estacionar em qualquer lugar.

Um prato
Comida tailandesa

Uma sobremesa
Putz! Sem lactose isso reduziu muito.

Religião
Pois é, tem momentos que sinto a presença do sagrado. No palco ou ouvindo Milton Nascimento.

Amor
É o que impede que a gente se destrua

Família
É a base emocional. Tenho sentido isso cada vez mais.

Sonho
Paz, no nível individual, na minha rua, na cidade, no país, no mundo.

Roberto é um cara…
Tabacudo (Ju, minha mulher, sempre fala isso). Acho que ela chegou na minha essência. Um clown, que transforma dor em delícia.

Mensagem aos fãs
Tomara que a gente se encontre logo em outros trabalhos. Valeu!

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2 COMENTÁRIOS

  1. deliciosa entrevista. O ator segue um bom desempenho em IMPÉRIO. Espero vê-lo em trabalhos futuros. Simples, simpático. Parabéns, Warlen pela ótima entrevista.

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