Alcides Nogueira: “Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí!”

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Alcides Nogueira participa do ‘Entrevista Coletiva’ no TV a Bordo

Alcides Nogueira
foto arquivo pessoal

O portal TV a Bordo tem a honra e a imensa satisfação de entrevistar: Alcides Nogueira. E começamos pela última pergunta que fizemos: qual é o poema que mais mexe com o seu coração? “São muitos os poemas, são muitos os poetas… Tantos, tantos, tantos!… Sou movido à poesia e música. Mas se tenho de escolher, há um que volta e meia eu murmuro, enquanto ando pela casa (risos)…”

Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

‘Cântico Negro’, de José Régio

Alcides Nogueira Pinto é um colecionador de prêmios no teatro e na televisão brasileira.  Os espetáculos ‘Lua de Cetim’, ‘Feliz Ano Velho’ e ‘Pólvora e Poesia’ são algumas de suas obras mais aclamadas. Na telinha, ‘O Astro’ recebeu o ‘Emmy Internacional’ como Melhor Novela em 2011. 

Dentro de alguns dias, Tide, como é conhecido carinhosamente por amigos que desfrutam da sua generosidade e do seu apreço ímpar, despede-se de mais um agradável desafio, a poética ‘Tempo de Amar’, folhetim da faixa das 18h da Globo, que acaba na próxima segunda, 19 de março.

A convite do TV a Bordo, o botucatuense aceitou participar do ‘Entrevista Coletiva’, coluna do portal em que um dramaturgo é sabatinado por jornalistas, roteiristas e atores, e que você confere a partir de agora.

Senhoras e senhores, ALCIDES NOGUEIRA:

Que análise você faz do público atual que vê novela em comparação com o público do passado?

(Carla Giffoni – jornalista)

Alcides Nogueira – Oi Carla, acho que houve uma mudança profunda. Hoje o público é muito mais antenado, está muito mais preocupado com os problemas e fatos da realidade, comunica-se mais, por meio das redes sociais. Com isso, não há mais aquela audiência por inércia ou impulso. As pessoas escolhem, cada vez mais, o que querem realmente assistir na televisão. Fora a existência de outras plataformas, como a internet, as redes sociais, o Netflix, os DVDs etc… São muitas outras telas! Mas, ao contrário do que possas parecer, acho isso perfeito!

Hoje, muitas questões e muitos temas deixam de ser tratados devido ao excesso do “politicamente correto”. Você acha que ele pode prejudicar a teledramaturgia?

(Albinno Grecco – professor e ator)

Alcides Nogueira Bela pergunta, Albinno! Tenho medo, sim. Precisamos repensar o  que é verdadeiramente “politicamente correto”. Há um excesso que não leva a nada. Claro que houve grandes avanços e que temos de tratar com seriedade e respeito temas relacionados ao racismo, ao gênero, à questão da mulher, ao assédio, a muitas outras questões… Não podemos ser levianos. Mas isso não pode travar a criatividade. Precisamos achar um meio-termo entre a liberdade de expressão e a abordagem correta desses (e de muitos outros) temas. Garanto a você que é uma tarefa dura.

Sempre ouvimos dizer que FORÇA DE UM DESEJO é uma novela de Gilberto Braga e Alcides Nogueira, no entanto, a sinopse ou o projeto original da novela era seu. Muitos antes, mais precisamente em 1988, li numa revista a notícia que você preparava a sinopse substituta de BAMBOLÊ com o título provisório de AMOR PERFEITO, inspirada nos livros A MOCIDADE DE TRAJANO, RETIRADA DE LAGUNA e INOCÊNCIA do escritor Visconde de Taunay, enfim, a mesma inspiração e descrição utilizadas em FORÇA DE UM DESEJO. Pergunto: por que então do projeto não sair naquela época, e quanto que o projeto foi mudado ou reescrito anos depois? E como fica o autor da ideia original diante dessa mudança?’

(Daniel Piloto – professor de Educação Artística)

Alcides Nogueira Daniel, você está correto. Realmente eu escrevi a sinopse de AMOR PERFEITO, que chegou a entrar em pré-produção e depois foi cancelada pelo Daniel Filho, na época o responsável pela teledramaturgia da Globo. Mais tarde, eu retomei essa sinopse e montei a de FORÇA DE UM DESEJO, baseada nas mesmas fontes (os livros de Taunay). A razão de o projeto não sair inicialmente foi a de que era melhor colocar na grade daquele momento uma novela urbana. Aconteceu uma coisa engraçada. As locações e grande parte do elenco foram para a novela que o Walter Negrão escreveu correndo, para substituir a minha: FERA RADICAL. Quanto à autoralidade da história, continuou sendo minha. Mais tarde, quando Gilberto Braga e eu optamos por nossa parceria (foi muito bom estar com Gilberto), a sinopse foi retrabalhada novamente, a quatro mãos.

Primeiro quero elogiar o tema do Judaísmo, que muito bem explorou em O AMOR ESTÁ NO AR, embalada por uma bela música (Al Kol Ele). Não sou judeu, mas gostei bastante da abordagem do tema e, sobretudo, por ter dado um personagem incomum para Nicete Bruno, habituada a atuar em papéis de boazinha. Outros trabalhos seus de grande prestígio foram O ASTRO e CIRANDA DE PEDRA. Com isso tudo, pergunto: qual delas foi a mais difícil de fazer? A primeira, uma obra original de grande pesquisa, já que além do Judaísmo abordou o Ufanismo? A segunda, uma releitura de um sucesso de Janete Clair? Ou a terceira, por ser tratar de uma adaptação literária?

(Michel Luiz Castellar – roteirista)

Alcides Nogueira Michel, obrigado por suas palavras carinhosas. Eu também não sou judeu (talvez seja cristão novo, não tenho certeza) mas o universo judaico me fascina. Que bom você citar a música Al Kol Ele – tão linda!… Quanto a Nicette, dizer o quê? Dama absoluta! Os três trabalhos tiveram seus desafios: O AMOR ESTÁ NO AR, pela questão que você apontou (pesquisa aprofundada), O ASTRO, não apenas por ser uma releitura minha e de Geraldo Carneiro de uma grande obra de Janete Clair, mas também pelo desafio de abrir o quarto horário de teledramaturgia da Globo (a novela das 23h). Quando Roberto Talma nos falou desse projeto, tratava-se de um tiro no escuro. Felizmente deu certo, O ASTRO foi um sucesso, Geraldo, eu e Maurinho Mendonça (diretor-artístico) ganhamos o Emmy Internacional e o quarto horário consolidou-se. CIRANDA DE PEDRA já tinha tido uma versão feita por Teixeira Filho, em 1981. Os desafios eram dois: a comparação com o livro de Lygia Fagundes Telles, que é uma obra-prima, e a comparação com a novela de Teixeira, que tinha sido um grande sucesso. Optei por uma releitura bem diferente da dele, que se baseava em apontar as diferenças sociais entre os dois principais núcleos. Voltei ao livro e naveguei pelos aspectos psicológicos apontados por Lygia. Minha alegria era que ela assistia diariamente e nós dois conversávamos sobre os capítulos. Isso foi um privilégio!

Alcides Nogueira e Vitor de Oliveira
foto arquivo pessoal / Alcides Nogueira com Vitor de Oliveira, colaborador em ‘O Astro’ e ‘I Love Paraisópolis’

Nas duas novelas em que trabalhei como seu colaborador, pude comprovar de perto o que todos conhecem: seu talento, sua ousadia, sua capacidade criativa e, principalmente, sua versatilidade em transitar por estilos e formatos completamente diferentes. Com toda essa experiência, você pretende algum dia assinar uma novela como autor titular às 21h? O que é necessário para encarar um desafio como esse?

(Vitor de Oliveira – roteirista)

Alcides NogueiraMeu querido Vitor (Vituxo), amigo essencial, grande companheiro de trabalho, talentosíssimo… Ah, como fui feliz ao seu lado e de Tarcísio em O ASTRO (com Geraldo Carneiro) e em I LOVE PARAISÓPOLIS (em parceria com Mario Teixeira). Obrigado por tudo o que escreveu. Não tenho medo das 21 horas. Fiz sete colaborações para esse horário. E você sabe que colaborador carrega o piano junto com o autor! A Globo está sinalizando que quer um novo projeto meu com Jayme Monjardim, para essa faixa. Preciso pensar. Confesso que a fala de Maria Adelaide calou fundo: “Não quero mais escrever para a novela das 21… Quero ser feliz!”. Respeito imensamente minha amiga e parceira Adelaide para não levar isso a sério… Fora que o horário das 18h sempre me fascinou… Mas você sabe que nosso ofício é esse, querido!… Muitos e diferentes caminhos à nossa frente!

Alcides Nogueira
foto reprodução / Malu Made em ‘Força de Um Desejo’ como Ester Delamare

Daniel Filho diz em seu livro ‘O CIRCO ELETRÔNICO’: “‘Força de Um Desejo’ não rendeu o sucesso esperado”. O que você tem a dizer sobre isso?

(Antônio Costa – roteirista)

Alcides Nogueira Alô, Antonio… É vero! Além de falar isso, Daniel não me deu o crédito (risos). Ficou sendo somente uma novela de Gilberto. Aqui está Denise Del Vecchio, que brilhou como a Baronesa Bárbara Ventura, para provar que não foi assim… E Daniel Piloto, que conhece toda a trajetória da sinopse. Realmente FORÇA DE UM DESEJO não teve a audiência que a emissora esperava, mas foi um grande sucesso de crítica e fidelizou muitos telespectadores. Audiência é uma coisa esquisita. E também não entendo os números das metas. Engraçado é que, quando reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, bombou! Tornou-se uma novela muito cultuada. Basta ver o frisson que aconteceu nas redes sociais quando eu trouxe Malu Mader (a Baronesa de Sobral de FORÇA DE UM DESEJO) para uma participação em TEMPO DE AMAR. 

Tide, já ouvi alguns autores dizer que as novelas são como filhos, por consequência, os tipos criados, logicamente, fazem parte desse universo concebido. Quando nascem, tomam forma, têm desejos, vontades e passam a caminhar pelo destino traçado por conta própria. Durante essa caminhada, existe alguma torcida (de sua parte) por um ou outro “filho” ou “filha” e que acaba influenciando na história e você se vê obrigado a mudar o futuro planejado?

(Warlen Pontes – jornalista)

Alcides Nogueira Meu querido Warlen, sem dúvida os personagens acabam, de uma forma ou de outra, pertencendo mais às atrizes e atores que os representam, do que ao criador deles. Mas esse pertencimento tem de ser relativo. Quem já trabalhou comigo, na escrita ou representando, sabe que sou muito aberto às contribuições do elenco e do diretor. Mas, ao mesmo tempo, não abro mão das trajetórias que pensei para “os filhos e filhas”.  Óbvio que, sendo uma obra aberta (e isso é maravilhoso), a novela permite o crescimento de um determinado personagem… E também as mudanças de caminho de outros. Mas, dentro do que me cabe, procuro manter meu mapa. Como um poema em linha reta! Não me deixo influenciar nem pela torcida do público nem pela minha torcida. Interessa o que é melhor para a história. Vale o que não provoque um desequilíbrio estrutural. Sofri muito isso no final de TEMPO DE AMAR. As torcidas pró-Inácio (Bruno Cabrerizo) e pró-Vicente (Bruno Ferrari) repercutiram muito nas redes sociais, revistas etc. Mas, como diz Machado de Assis, fiz ouvidos moucos e estruturei o final mais condizente com a história contada. 

Alcides Nogueira
foto arquivo pessoal / Jayme Monjardim, Alcides Nogueira, Letícia Sabatella, Vitória Strada, Bruno Cabrerizo e Tony Ramos

Tide, queria saber se você chega a sonhar com personagens e como você se despede dessas “pessoas” que conviveram com você por mais de um ano (considerando o processo de criação e a exibição da novela), de um dia para o outro. Ou não se despede? Quanto tempo demora para “espantar” esses fantasminhas da sua imaginação?

(Cristina Padiglione – jornalista e colunista)

Alcides NogueiraPadi, Padi, Padi, paixão!!!! Que pergunta wow! Essa questão do sonho nunca ninguém me perguntou. Sonho, sim! Muito. Como quase sempre lembro de meus sonhos, muitas vezes acordo com soluções para personagens. Querida, eu não consigo me despedir dessas pessoas que viveram em minha cabeça e em meu coração durante tantos meses… Elas vão, por conta própria, indo embora. Mas sabem que deixaram suas marcas – ETERNAS… Isso acontece na televisão e no teatro. Confesso que alguns personagens saem mais rapidamente… Outros, parecem fazer de minha cabeça o seu refúgio! Deixo!… Que os fantasminhas tenham seu tempo (risos).

Alcides Nogueira
foto reprodução

O palco tem saudades de você. Qual é a sua relação com o teatro hoje?

(Denise Del Vecchio – atriz)

Alcides NogueiraMinha amadíssima Denise!!!!!! Você, mais do que ninguém, sabe que também sinto uma falta imensa do palco! É o meu lugar no mundo! Durante um bom tempo, consegui (como você), conjugar os dois universos – teatro e televisão. Depois, não tive mais o mesmo fôlego… A televisão sugou muito a minha criatividade e meu casamento com o teatro entrou em convulsão (risos). Sem DR!… Mas vou voltar! Adoro a telinha, mas sem o palco, não sou nada! E amaria que você estivesse, mais uma vez, comigo! Você sempre foi a minha grande atriz! Prepare-se pois, quando menos esperar, receberá um texto. Espero, de coração, que concorde em fazer!

A seguir, Alcides Nogueira destaca algumas de suas obras na teledramaturgia:

Alcides Nogueira
foto reprodução
 A vontade de voar solo, ancorado na cabala e com os olhos voltados para um universo instigante.
foto reprodução

Além de ter sido uma novela que me arrebatou, houve a convivência com Gilberto Braga. Riquíssima.

foto reprodução
Geraldo Carneiro e eu não tivemos pudor algum com a obra de Janete Clair, e garanto que ela aprovaria isso.
foto reprodução
Que privilégio Maria Adelaide e eu tivemos, contando a história de São Paulo, pelo ponto de vista cultural.
Alcides Nogueira
foto reprodução
 Minha melhor novela, quando até eu mesmo fiquei surpreso com a chegada da maturidade.
ASSISTA AO TEASER DE TEMPO DE AMAR

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‘Tempo de Amar’ é escrita por Alcides Nogueira em parceria com Bia Corrêa do Lago, tem base no argumento de Rubem Fonseca, e escrita com a colaboração de Tarcísio Lara Puiati e Bíbi Da Pieve, conta com a direção de Teresa Lampreia, Felipe Louzada e Diego Müller, e também conta com a direção geral de Adriano Melo, e a direção artística de Jayme Monjardim.
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