Bruno Mazzeo estreia série multiplataforma ‘Diário de Um Confinado’

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Diário de um Confinado é uma obra pensada e produzida especialmente para a quarentena

Bruno Mazzeo estreia série multiplataforma 'Diário de Um Confinado'
Murilo (Bruno Mazzeo) – set depoimento / foto Glauco Firpo

A série multiplataforma, que será lançada primeiro no Globoplay, faz uma crônica do isolamento social

A série ‘Diário de um Confinado’ foi criada literalmente em casa e em família, por Joana Jabace e o marido Bruno Mazzeo. O projeto de dramaturgia foi idealizado para ser produzido durante a quarentena, de forma remota, com todas as limitações que o isolamento social requer, seguindo todas as normas de segurança. A série multiplataforma será exibida primeiro no Globoplay, no dia 26, depois na TV Globo, aos sábados de julho, a partir do dia 04. Também em julho, estreia dia 06 no Multishow e ganha pílulas ao longo do mês no GNT. Joana Jabace é quem faz a direção artística da série, gravada no apartamento onde o casal vive com os filhos, no Rio de Janeiro.
 
Joana Jabace
“Temos na mesma casa um autor que também é ator e eu, que sou diretora. Usamos essa nossa especificidade a favor da arte. Acredito que o artista tem que se reinventar de acordo com as necessidades do tempo em que vive. Foi assim que tivemos a ideia deste projeto. O tipo de humor que o Bruno faz é engraçado, mas tem melancolia. E nos interessa falar deste momento que estamos vivendo de um jeito leve, mas também realista”, conta Joana Jabace.
 
A obra faz uma crônica sobre o dia a dia de um cidadão, Murilo (Bruno Mazzeo), que de repente se vê obrigado a tocar a vida dentro de casa. Seus compromissos pessoais e profissionais são todos remotos: a terapia, o encontro com os amigos. Pedir uma pizza nunca foi tão desafiador, e tantas dúvidas fazem com que muitas relações, mesmo que virtualmente, sejam estreitadas. Nunca se precisou tanto dos conselhos de mãe, tia ou do médico. Esses personagens que interagem com o confinado Murilo na trama são vividos por grandes nomes como Arlete Salles, Debora Bloch, Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Lúcio Mauro Filho, Renata Sorrah.
 
Bruno Mazzeo
Bruno conta que as ideias do texto foram surgindo sempre a partir da realidade, diante da situação que o mundo atual enfrenta. “Como tudo o que escrevo, sobretudo quando escrevo sob o olhar da crônica, normalmente tem um pé na biografia – na autobiografia e na de cada um que está participando do projeto comigo. Tem um ditado italiano que diz que ‘na arte, tudo é autobiográfico’, porque vem de sensações, de referências que recebemos do mundo, coisas que vivemos, que os amigos vivem. ‘Diário de um Confinado’ é um programa que busca uma identificação. Ao mesmo tempo, tem pitadas de uma loucurinha, que é o que a gente está vivendo, com sentimentos alterados. E é aí que entra a carga do humor”, detalha o autor.
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Produção remota: em tempos de isolamento, um novo jeito de fazer
 

Para ser colocado em prática em dias de isolamento, foi necessário planejar para que ‘Diário de um Confinado’ fosse feito remotamente, de acordo com o protocolo de segurança elaborado pela emissora, com uma série de cuidados para evitar a exposição dos profissionais. Para a produção, foi montada uma equipe multidisciplinar que conceituou e pré-produziu a série, com um importante diferencial: tudo deveria ser feito à distância. “Assistente de direção, produção de arte, montador, pós-produção, figurino, efeito especial. Todos os departamentos foram participando cada um de sua casa. Entramos de cabeça nesse desafio imbuídos de fazer dar certo e nos reinventarmos”, explica Joana.
 
O projeto utiliza uma linguagem específica, com a qualidade de produção de televisão, mas feito em casa. “A ideia é realizar de um jeito artesanal, mas não amador. A luz e o enquadramento foram pensados dentro dessas premissas. É um projeto feito na minha casa mas poderia ter sido feito num estúdio. Tem um mood de dramaturgia, e nosso intuito é que o espectador embarque no universo do Murilo”, analisa a diretora. Toda a pós-produção da série, incluindo sonorização e edição, também está sendo feita remotamente, após a equipe assistir às gravações on-line, em tempo real. 
 
Joana dirigiu presencialmente o marido, enquanto o restante do elenco foi dirigido à distância. Os atores convidados aparecem em chamadas de vídeo, mas também fizeram eles mesmos a captação de suas cenas com um kit de gravação, preparado para uso individual.
 
Sobre a rotina em casa, com a gravação dos episódios, Bruno conta que foi animado. “Em casa, com nossos dois filhos, tocamos todas as fases de uma produção: texto, filmagem, edição. Tudo foi desafiador, desde uma prova de roupa, com a figurinista olhando o meu armário por vídeo de celular e nós, montando o personagem com as peças do meu guarda-roupa. A maneira de escrever, de produzir, os roteiros, as soluções são o grande diferencial deste programa. Fomos solucionando as impossibilidades em todos esses setores, inclusive criativamente na dramaturgia, dando agilidade às cenas, mesmo sem o recurso de uma fuga para outros cenários. O grande diferencial de ‘Diário de um Confinado’ é a forma de fazer neste momento de isolamento social”, destaca o autor. 
 
Soluções remotas de tecnologia em todo o ciclo de produção
 Há alguns anos, a Globo vem encabeçando trabalhos com um pool de inovações tecnológicas e desenvolvendo soluções para produção remota, garantindo mais eficiência, principalmente em grandes eventos. Agora, em ‘Diário de um Confinado’, a emissora aplicou toda essa expertise na implementação da produção remota em todo um ciclo de um produto de dramaturgia. A solução foi desenhada em um momento em que o isolamento social tem sido protagonista, e visando garantir segurança, liberdade e agilidade para as equipes. 
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Seguindo os protocolos de proteção dos Estúdios Globo, as etapas de montagem e preparação da locação foram conduzidas remotamente com uma equipe multidisciplinar. Para garantir um resultado de qualidade, todo o processo foi acompanhado virtualmente pelo time de Tecnologia Globo, que disponibilizou os materiais de captação e deu suporte remoto na montagem e nas configurações.
 

Essa é a primeira vez em que esse tipo de produção utiliza celulares com câmeras de alta performance para captação, além de soluções de monitoramento à distância e o controle completamente remoto da transferência de arquivos em nuvem para armazenamento e edição. Para os atores com participações especiais na produção, gravando individualmente em suas respectivas casas, os equipamentos incluíram dois celulares de última geração: um telefone conectado em uma web meeting que permite às equipes monitorar e acompanhar a gravação; e outro aparelho para captação em 4K. O kit conta ainda com tripés, microfones externos de ótima sensibilidade que permitem a monitoração a distância e ringlights para controlar a luz. 
 
Já para a direção, foram disponibilizas câmeras com sensores full frame, estabilização, smartphones,  monitoramentos, além de links de vídeo e itens de iluminação. Em ambos os casos, os materiais são ligados a um aplicativo de assistência remota que permite à Tecnologia apoiar e controlar toda a parte técnica durante as gravações. Um pedaço dessa gama de soluções abarca ainda outros times como assistentes de direção, cenografia, montagem, produção de arte, figurino, continuístas, técnicos de controle e grande parte da pós-produção, cada um em sua residência.
 
Diário de Um Confinado
‘Diário de um Confinado’ é uma criação de Joana Jabace e Bruno Mazzeo. A obra é escrita por Bruno Mazzeo, com Rosana Ferrão, Leonardo Lanna e Veronica Debom, e tem direção artística de Joana Jabace.
Entrevista com a diretora artística Joana Jabace
‘Diário de um Confinado’ é uma série produzida, do início ao fim, durante a quarentena. Quais são os principais desafios deste produto?
Acho que o maior desafio foi fazer da minha casa um set de gravação, equalizar essa dinâmica. Não estamos falando de uma locação, nem de um estúdio, nem de uma cidade cenográfica. Estamos falando da minha casa, numa situação onde meus filhos de três anos estavam 100% do tempo. Foi preciso respeitar o tempo das crianças, a nossa dinâmica interna como família, e as duas coisas tiveram que andar em paralelo.
 
Como surgiu a ideia desse projeto?
Eu estava em São Paulo gravando ‘Segunda Chamada’ e o Bruno no Rio, gravando um outro projeto. Vim passar uns dias aqui com ele, e o mundo parou, não voltei mais. Nas três primeiras semanas, fiquei um pouco em estado de choque, assim como acho que todo mundo. Pensando “caramba, o que vai acontecer?”. Mas as fichas vão caindo aos poucos. Primeiro, achamos que fosse ser uma coisa rápida, mas depois a ficha foi caindo e acho que a gente não vai voltar a viver do jeito que vivia. No meu ofício, como diretora, parei de achar que tinha que ficar buscando algo igual ao que fazia antes. Pensei que a gente tem que parar de se lamentar por ter perdido um modo de fazer e pensar para frente. E, por acaso, a gente tem essa característica, essa especificidade de ter um autor que é ator, e eu que sou diretora, na mesma casa. Por que a gente não pensa num projeto? Não cria alguma coisa nova, um conteúdo inédito para oferecer para a Globo? Foi isso que pensei, no sentido de achar que o artista tem que se reinventar de acordo com as necessidades do tempo em que ele vive. E o tipo de humor que o Bruno faz é um tipo de humor que se encaixa com esse tipo de programa. Porque falar da quarentena, de um confinamento num drama, para mim era difícil, por ser um assunto pesado. O Bruno faz um tipo de humor que é engraçado mas tem melancolia, tem realidade. Quando falei para ele para fazermos algo juntos, foi também porque me interessa falar do que estamos vivendo de um jeito leve mas também realista, doído.
 
Estamos vivendo um período de isolamento, mas a série conta com uma equipe trabalhando nesta produção. Como foram os encontros com o time e como foram feitas as gravações?
A gente tem uma equipe formada por profissionais dos Estúdios Globo como se estivéssemos fazendo um programa ao vivo. Temos um assistente de direção, arte, montador, pós-produção, efeito especial, só que todos os departamentos trabalhando remotamente, cada um de sua casa. Estamos todos muito animados porque é o primeiro projeto de série de dramaturgia que a Globo está fazendo nesse período de isolamento. Estamos todos imbuídos de fazer dar certo e buscando nos reinventarmos, pensar fora da caixinha. Os atores também estavam assim, com esse mesmo sentimento, todo mundo entendendo o novo jeito de fazer. É um mega desafio para todos os departamentos.
 
Como funcionaram, na prática, essas adaptações para a equipe trabalhar desse jeito remoto? Quais cuidados vocês tiveram que tomar e quais foram as soluções criativas que surgiram diante da limitação?
A área de Tecnologia da empresa deu um salto para permitir que a gente fizesse esse programa todo remoto. São inúmeras soluções, como os kits que os atores recebem cada um em sua casa, fáceis de ligar, com tutorial, mas com áudio, câmera, luz, que em dois minutos a pessoa monta. O próprio equipamento de câmera aqui de casa e a forma de enviarmos isso depois. Tudo foi remoto. A produção também encontrou várias soluções criativas. Tive que fotografar a minha casa toda e fizemos reunião com a diretora de arte para ela sugerir mudanças de objetos de lugares, mudanças de móveis.
 
Mesmo sendo um projeto feito em casa, tem todo esse know how (tecnológico e humano) da emissora. Como você avalia a união dessas duas realidades?
Minha expectativa, era conseguir contar essa história de um jeito artesanal, mas não amador. A luz e o enquadramento foram pensados dentro dessas premissas. O projeto foi feito na minha casa mas poderia ter sido feito num estúdio pequenininho.  Tem um mood de dramaturgia, e nosso intuito é que o espectador embarque no universo do Murilo.  As participações também engrandecem esse produto: Arlete Salles, Renata Sorrah, Fernanda Torres, Deborah Bloch, Lázaro Ramos. Nosso diferencial é a dramaturgia e o conceito de direção.
 
Apesar da pandemia, a cultura não para. E esse projeto comprova isso. Que avaliação você faz dos impactos deste momento para a produção audiovisual?
Essa pandemia está mudando o planeta, e o ofício do ator, do diretor, do roteirista vai mudar radicalmente. Quem tiver coragem e capacidade de se reinventar vai seguir, pois a arte não vai parar. Acredito que vá ser totalmente diferente. Vamos estar falando de um mundo, até a vacina chegar, mais restrito. A gente ainda não sabe quais serão as restrições, os protocolos de volta de gravação, o que vai poder fazer ou não. Não vamos ter tantos recursos quanto já tivemos, do ponto de vista financeiro, e também não vai ter tanta liberdade do ponto de vista de saúde, até que tenhamos uma vacina. Vai ser diferente, mas acho que vamos fazer muito bem, pois a gente sempre se reconstrói, e a Globo tem os grandes talentos do mercado. É um desafio para o diretor pensar jeitos de realizar, mas é um grande desafio para os roteiristas pensar histórias que se viabilizem nesses novos tempos. Eu sempre trabalhei muito, desde muito jovem, mas não me lembro de estar num período tão criativo quanto na quarentena. Tenho tido muitas ideias, desenvolvido projetos com muita gente diferente. Agora, por mais que eu trabalhe o dia inteiro, a minha cabeça tem tido mais tempo para refletir e trocar artisticamente. Tenho pensado em muitas coisas para fazer quando puder voltar ou durante a quarentena mesmo. É um período difícil, angustiante, mas também fértil.
 
‘Diário de um Confinado’ foi todo filmado na sua casa, dirigido por você, escrito pelo Bruno, seu marido, e com ele no papel do protagonista, Murilo. Essas múltiplas funções de vocês tornam o projeto mais motivador? Como foi a rotina das gravações? 
O Bruno sempre me apoiou muito, me incentivou, vibra com as minhas conquistas, mas sempre se queixou que eu trabalhava muito. Continuo trabalhando muito, mas agora com ele. Nunca tínhamos trabalhado juntos assim. Mas, como estamos no mesmo ramo, a gente sempre trocou muito profissionalmente, temos muita interlocução artística e, nesse sentido, é ainda mais prazerosa essa parceria. Sobre a dinâmica da casa, tive momentos oscilando entre achar maravilhoso e não saber como íamos chegar até o final (risos). Sempre tive muita ajuda do meu pai e da minha mãe nessa nossa rotina maluca de gravação e agora não tenho. Os meninos, de fato, estiveram no meio da história. Mas nós somos a mãe e o pai que eles têm. Pra gente, isso é um registro de um momento muito específico das nossas vidas. Nossa geração nunca vai esquecer que ficamos confinados. E meus filhos vão ter esse registro por conta da série e isso também é muito simbólico. Vai ser interessante olhar isso daqui a alguns anos.  
 
E como foi a escolha do restante do elenco?
Quando começamos a escalar, tivemos a premissa de fazer um projeto muito afetuoso, cercado de pessoas que ficariam entusiasmadas, felizes como nós. Quisemos nos cercar de pessoas com quem temos intimidade porque dirigir remotamente, não estar no ao vivo com a pessoa, é uma situação delicada. Também tive esse critério em relação à equipe: de escolher pessoas que sabia que iam curtir estar ali com a gente. Todo mundo que está no projeto quer estar nele.
 
No confinamento da história, todos os dias parecem ser os mesmos, é como se o personagem estivesse encapsulado no tempo, mesmo depois de tantos dias de isolamento. Quais recursos vocês  utilizaram para que o espectador sinta isso? E como é a linguagem visual da série?
A sensação de todos os dias serem os mesmos dias vai estar muito no cenário. A sala da nossa casa foi transformada no loft do Murilo, como se o quarto fosse na sala. Ele está sempre ocupando o mesmo espaço, dando a sensação de que está enraizado, que não consegue sair do lugar. E, de fato, ele não consegue. No figurino, ele vai ter poucas trocas de roupa, e as próprias situações que a série aborda vão trazer essa sensação de aprisionamento, de que todos os dias são os mesmos. Tem no texto e eu quis levar para a direção essa sensação de solidão, de angústia, de estar fincado no espaço e no tempo, sem conseguir se movimentar. E, como linguagem de câmera, a gente fez um pensamento (de fotografia, direção de arte e figurino) de paleta mais âmbar, com a luz do dia entrando, com uma temperatura um pouco mais quente, para contrastar com a luz do computador, que é fria. E também para contrastar com a linguagem das lives e das selfies, que tem uma luz mais fria também. Do ponto de vista de fotografia a ideia foi que a gente saísse do digital e fosse para uma linguagem mais quentinha. Do ponto de vista de movimentação de câmera, é uma câmera vouyer: como se tivesse uma câmera em registro, num documentário sobre o confinado. Por isso ele faz depoimentos para a câmera.
 
Quais são, para você, as principais características de ‘Diário de um Confinado’?
Ser factual. A velocidade de estar fazendo uma crônica atual de um momento que a gente está vivendo. Acho que essa é a maior virtude do projeto. É a capacidade de a gente produzir uma dramaturgia sobre algo muito recente. É uma crônica com humor, mas com melancolia, com drama, com dor. O grande barato é a gente estar fazendo esse projeto tão rápido. Isso é o maior ativo do projeto: criar dramaturgia de uma realidade tão recente para a humanidade toda.
 
Quais têm sido os grandes aprendizados para vocês, como artistas e família, diante de tudo isso que a gente está vivendo com a pandemia?
A gente sempre teve muita ajuda em casa, sempre tivemos a casa muito cheia. Quando entramos em quarentena, foi a primeira vez que ficamos por muito tempo só nós quatro. Isso está sendo uma experiência muito boa, apesar de difícil. As crianças estão bem. Claro, eles sentem falta de correr ao ar livre, do sol. Mas estão abastecidos com a gente. O confinamento trouxe pra gente a individualidade da família. Pra mim, traz também uma reflexão do tempo presente, de estar presente e conseguir, realmente, fazer o que está fazendo. Na quarentena tenho aprendido muito a dar valor ao tempo presente.
 
O que, na sua opinião, o público pode esperar de ‘Diário de um confinado’?
Se divertir com situações que são comuns a muita gente. É muito peculiar isso, muitas pessoas vivenciando as mesmas situações. O público também pode esperar leveza, a série traz um alento. É quase uma metalinguagem, porque traz divertimento e uma mensagem de que a gente não parou. Vamos sair dessa, não fechou a cortina, não se apagou a luz.
 
Entrevista com o autor Bruno Mazzeo
 
Como surgiu a ideia de escrever ‘Diário de um confinado’?
A ideia veio da Joana. Já estávamos vivendo o confinamento, ela ainda trabalhando em ‘Segunda Chamada’, remotamente, e eu pensando em trabalhos mais à frente, porque estava organizado para só atuar este ano. Aí ela trouxe essa ideia: “e se pensarmos em algo que a gente possa gravar aqui em casa? Você escreve e atua, eu dirijo”. Começamos, então, a pensar em crônicas de uma pessoa confinada. Chamei a Rosana Ferrão, minha parceira no ‘Cilada’, pensamos no formato e chegamos nesse, de fazer um diário com situações que a gente passa no confinamento, com algumas neuroses, paranoias…
 
Alguma das situações vividas por Murilo nesse período de isolamento já aconteceram com você? Você se vê de alguma forma nesse personagem que criou e vai interpretar? Ou se inspirou em pessoas próximas?
Como tudo o que escrevo, sobretudo quando escrevo sob o olhar da crônica, normalmente tem um pé na autobiografia e na de cada um que está participando comigo. Tem um ditado italiano que eu gosto muito que diz que “na arte tudo é autobiográfico” porque tudo vem de sensações minhas, de referências que recebo do mundo, coisas que vivo, que os amigos vivem. Este é um programa que busca uma identificação. Ao mesmo tempo, ele tem pitadas de uma loucurinha, que é o que a gente está vivendo, com sentimentos alterados, entre a euforia e a melancolia. E é aí que entra a carga do humor. Mas a ideia é partir sempre da realidade.
 
Não é a primeira vez que você e Joana trabalham juntos, mas essa é uma nova configuração de produção para ambos. Como está sendo levar esse trabalho totalmente para dentro de casa?
Já trabalhamos juntos em outros dois projetos – ‘A Regra do Jogo’ e ‘Filhos da Pátria’ – mas nunca tão próximos. Diretamente, esta foi a primeira vez, e isso era uma coisa que nós já queríamos muito. Gosto muito de trocar com a Joana, a gente tem muita ideia sempre, ela é muito inteligente, criativa, tem um olhar muito interessante. Sempre quisemos, mas outros trabalhos iam pintando. Eu não esperava que fosse em 2020, porque eu estava programado para atuar em outros projetos este ano todo. Muito menos que fosse acontecer nesse momento e fazendo algo que é uma novidade para todo mundo. Fomos descobrindo juntos como fazer, em casa, com dois filhos, tocando todas as fases. Eu já trabalho muito em casa escrevendo, mas agora tudo passou a acontecer aqui: texto, prova de figurino, filmagem, edição, filmagem, lançamento. Isso é mais uma novidade. Confesso que já vivi, no confinamento, uma gangorra de sensações e sentimentos. Num dia a gente acorda mais pra baixo, no outro está tranquilo. Num dia não quer sair do quarto, no outro está super querendo malhar pela internet. É uma loucura. Com o projeto eu já vivi isso também: logo que ele foi aprovado eu fiquei muito feliz e, depois, tenso pelo desafio. Hoje estou muito animado, achando muito legal o que realizamos. 
 
E é um trabalho com uma equipe envolvida, mas todo feito remotamente, tanto na produção quanto na sua atuação com o restante do elenco. Quais foram os desafios para colocar esse projeto, que, do início ao fim, acontece durante o isolamento, no ar?
Da minha parte, a única coisa que já era feita assim, de casa, e que eu faço muito, é o texto. De resto, tudo foi novidade para mim. Desde uma prova de figurino por chamada de vídeo, com a figurinista olhando meu armário e montando o Murilo com o meu guarda-roupa, até o gravar e editar em casa. Gravar com os filhos aqui, com a vida real seguindo… Olha, desafio não faltou. Adaptamos a nossa casa e, ao mesmo tempo, adaptamos algumas coisas no texto também para coisas que a gente tinha aqui. Não estávamos nos Estúdios Globo, onde um cenário, por exemplo, é construído de acordo com a necessidade do texto. Aqui foi o contrário. O que fizemos se pareceu um pouco com o teatro, em que o ator também é o contrarregra. Tem ainda o desafio da dramaturgia: não teve uma fuga, uma cena ali na esquina, não teve um personagem que chega. Usamos tudo aqui de dentro, nas nossas possibilidades, mas sem poder usar um efeito especial, por exemplo. E esses desafios tornaram esse trabalho ainda mais prazeroso e animador.
 
Você se envolveu na escolha do elenco?
Fomos pensando juntos. É um elenco muito em casa, são pessoas muito próximas, a gente se frequenta. Próximas a mim, ou à Joana ou aos dois. Curiosamente, finalmente contracenei com a Nanda (Fernanda Torres), depois de um fazer texto do outro. E tive a honra de fazer cenas pela primeira vez com Arlete Salles e Renata Sorrah, que estão entre minhas atrizes preferidas. Com Nanda e Lucinho (Lúcio Mauro Filho) o fato de termos total intimidade ajudou muito. E, finalmente, realizei o desejo de contracenar com Debi (Débora Bloch), mesmo que em condições completamente diferentes das de um set normal.
 
Você já atuou algumas vezes em obras escritas por você. Durante a escrita, já se imaginar como o personagem (dando o tom que ele certamente terá) facilita o processo? A experiência como ator ajuda a escrever uma história?
Nesse caso, das crônicas, me ajuda muito. Vou colocando na minha embocadura. Como eu também atuo, vou escrevendo, lendo, interpretando e já vou colocando numa embocadura próxima do natural de falar. Eu penso: “como eu falaria?” Me facilita muito nesse momento.
 
‘Diário de um Confinado’ é uma série de humor, mas Murilo mostra uma certa dose de melancolia, talvez pela solidão do confinamento. Para você, quais são as principais características dessa obra?
A maneira de escrever, a maneira de produzir, os roteiros, as soluções são o grande diferencial. E como a gente solucionou as impossibilidades em todos esses setores, inclusive criativamente na dramaturgia. Por exemplo, como a gente dá agilidade, não deixa cair o ritmo, se não tem uma fuga para outros cenários, outros universos. A melancolia é uma característica que eu gosto muito, porque, para mim, caminha junto. O humor vem de uma tragédia, e o que a gente está vivendo é uma tragédia. O que muda é o olhar, que transforma a tragédia em uma comédia, mas com essa base trágica. Pelo formato possível, a gente não podia fazer uma coisa muito longa, então são episódios mais curtos. Por isso, eu tive que ir mais direto ao assunto, mais direto na graça. A agilidade que eu estou imaginando é uma solução pra gente.
 
Quais têm sido os grandes aprendizados para vocês, como artistas e família, diante de tudo isso que a gente está vivendo com a pandemia?
Se tem uma coisa boa que veio com essa pandemia, para mim, foi a união da família. Durante boa parte desse tempo, as crianças ficaram felicíssimas, porque eles nunca têm a oportunidade de estar só com pai e mãe o tempo todo como tem acontecido. Mas tem as dificuldades do momento também: trabalho, as tarefas domésticas, eu com meu filho mais velho longe, a Joana longe dos pais. Acho que isso também fez a gente ficar muito unido, nos ajudando e convivendo harmonicamente. O trabalho vem coroar isso. Estamos vivendo o orgulho de ter feito esse projeto que nos uniu 100%: gravando, cuidando das crianças, arrumando a cama, sendo contrarregra, continuista… Acho que isso é o que há de mais positivo. Além de estar há um tempo sem sofrer com jogo do Vasco, o que não deixa de ser um grande alívio (risos).
 
O que o público pode esperar de ‘Diário de um Confinado’?
O público pode esperar uma crônica de costumes. Não somos uma série de arco de personagem. ‘Diário de um Confinado’ são crônicas separadas por assuntos e vivências, porque é como a gente está vivendo agora, nessa variedade de sentimentos e acontecimentos. Passamos por muitas fases dentro de um confinamento, né? Eu já vivi muitas coisas nesse período: a frustração pela interrupção de projetos; meu aniversário, o aniversário de todos os meus filhos, já tive momentos de tédio, desesperança, depois esperança, desesperança de novo, um trabalho que começou e que vai acabar. São muitos acontecimentos e aprendizados. Essas crônicas falam de mim, e espero que de todos nós. Está engraçado, está humano. É, realmente, um olhar cômico sobre essa tragédia que estamos vivendo. No texto a gente não fala da doença, apesar de o personagem viver momentos de paranoia. Mas estamos focados nos costumes: um cara lidando com a solidão, com as tarefas domésticas, um cara tentando não enlouquecer. Como eu.
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