‘Dia da Consciência Negra’: Globo exibe especial ‘Falas Negras’

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Especial ‘Falas Negras’, idealizado e organizado por Manuela Dias e dirigido por Lázaro Ramos, apresenta 22 registros biográficos de pessoas que lutaram contra o racismo

'Dia da Consciência Negra': Globo exibe especial 'Falas Negras'
Muhammad Ali (Babu Santana) foto Victor Pollak

Babu Santana, Heloisa Jorge, Olivia Araujo e Reinaldo Junior detalham atuação no especial

A TV Globo exibe no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, o especial ‘Falas Negras’, com 22 depoimentos reais de pessoas que lutaram contra o racismo e pela liberdade, a favor da justiça, em registros biográficos ou em vídeos que a História nos ofereceu. Essas falas históricas são interpretadas por atores, todas em primeira pessoa, em um projeto criado por Manuela Dias, sob a direção de Lázaro Ramos. Desde os relatos coloniais de Nzinga Mbandi, que datam de 1626, aos ensinamentos pacifistas de Martin Luther King Jr., passando pela veemência de Malcolm X e Angela Davis, até a força de Marielle Franco, ou as dores de Mirtes Souza, mãe do menino Miguel, e Neilton Matos Pinto, pai de jovem João Pedro, ‘Falas Negras’ mostra que o espírito de luta e de resistência dos povos afrodiaspóricos ultrapassa a barreira do tempo, os limites territoriais, e permanece vivo até os dias de hoje.

Manuela Dias

“O projeto nasceu durante a pandemia, durante três semanas de episódios tão simbólicos. Teve o assassinato do João Pedro, na semana seguinte o assassinato do George Floyd, e depois teve a morte do Miguel, um assassinato indireto que evidencia de forma quase caricatural a nossa chaga histórica. Isso tudo me mobilizou e propus para a TV Globo que a gente fizesse o especial. Sugeri abrir espaço para essas aspas para mostrar a inconformidade com o que a gente vem vivendo há mais de 500 anos”, explica Manuela.

Thaís Fragozo

Entre a produção de um capítulo e outro de ‘Amor de Mãe’, novela das nove, da qual é autora e que retomou as gravações no mês de agosto, Manuela organizou os textos selecionados após uma extensa pesquisa de Thaís Fragozo sobre depoimentos históricos: “Eu vejo o ‘Falas Negras’ como telefilme e como uma obra de arte. Assim como o ‘Human’ (documentário do cineasta Yann Arthus-Bertrand), como ‘Jogo de Cena’ (documentário de Eduardo Coutinho), como muitos filmes que trabalham com depoimentos reais ficcionalizados. Além de ter Caravaggio como inspiração para a fotografia”.

Lázaro Ramos

Lázaro Ramos, junto da assistente de direção Mayara Pacífico, conduziu por dez dias ensaios feitos de forma remota, onde o elenco contou com a preparação da atriz Tatiana Tibúrcio e teve aulas sobre a trajetória dos personagens dadas pela antropóloga Aline Maia, que também é consultora do especial. “Procuramos atores que fossem bons contadores de história, porque o projeto, na verdade, é isso. Ele não tem grandes movimentos de câmera e mudanças de cenários, aposta na capacidade de os atores contarem bem essa história, que é o que vai fazer com que o espectador se envolva com ela”, explica Lázaro.

Mauro Vicente Ferreira

A cenografia, assinada por Mauro Vicente Ferreira, levantou um baobá, de proporções reais – sendo cinco metros de altura e a copa de seis metros de diâmetro – dentro do cenário para abrir o especial. Ao longo do programa, os demais cenários contam com fundo cenográfico de texturas, que funcionam como pano de fundo das histórias. “Não queríamos grandes interferências da cenografia, por se tratar de uma temática tão delicada. Pensamos em iniciar o projeto pela África e o que poderia ter essa referência, o baobá, que é a árvore-mãe, um elemento tão presente no continente e com todo simbolismo que ele representa. E o resultado ficou incrível”, comenta Mauro, que também trabalhou com um piso com uma textura semelhante a do barro para compor esse cenário.

Tereza NABUCO

Para o figurino do especial, assinado por Tereza Nabuco, a opção foi executá-lo da maneira mais próxima das imagens disponíveis nos canais de pesquisa. “Estamos falando de várias personalidades, algumas desconhecidas da grande maioria. A intenção é aproximar o público dessas imagens e, mais ainda, dessas pessoas. A ideia é abrir a porta para a primeira apresentação. Não é um documentário, portanto, com base na realidade, podemos ficar livres também para reforçarmos o que achamos de relevante em cada um, seja com adereços, cabelo, roupas e, principalmente, as atitudes. O grande destaque nesse projeto são as palavras que saem da boca desses heróis. Se hoje estamos aqui contando essa história para um canal aberto, é porque eles deram muitos passos nessa direção, abriram caminhos”, defende a figurinista.

SEM ficção

E todas as falas são muito fortes. Lázaro Ramos confessa que, desde o seu primeiro contato com os textos, ficou mexido. “Quando li o material todo, fiquei parado por um tempo pensando em como que eu ia lidar com aquilo. Mas, ao mesmo tempo, sei que tudo aconteceu de verdade, não tem ficção aqui. É o que a nossa História produziu. Então, senti como um convite para refletir sobre como a gente vê a História. O meu desejo é que as pessoas se sintam motivadas a agir. É a nossa História, foi o que nós produzimos. E aí? O que faremos com isso?”, devolve ele.

Idealizado e organizado

Idealizado e organizado por Manuela Dias, ‘Falas Negras’ é dirigido por Lázaro Ramos, conta com Thaís Fragozo na pesquisa e Aline Maia como consultora e pesquisadora. Integram o elenco do especial Fabricio Boliveira, Babu Santana, Guilherme Silva, Ivy Souza, Naruna Costa, Taís Araujo, Heloisa Jorge, Barbara Reis, Mariana Nunes, Izak Dahora, Silvio Guindane, Olivia Araujo, Reinaldo Junior, Aline Deluna, Flávio Bauraqui, Bukassa Kabengele, Angelo Flavio, Samuel Melo, Aílton Graça, Tulanih Pereira, Valdineia Soriano e Tatiana Tiburcio. O especial vai ao ar no dia 20 de novembro, logo após ‘A Força do Querer’.

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Perfis dos personagens

Nzinga Mbandi (Heloisa Jorge) – A rainha do Reino do Dongo e Matamba nasceu na Angola e viveu entre 1583 a 1663, e simboliza a resistência africana à colonização e a comercialização de escravos. Foi uma rainha combatente, destemida, chefiou pessoalmente o exército até os 73 anos de idade.

Olaudah Equiano (Fabrício Boliveira) – O escritor nigeriano, que viveu entre 1745 e 1797, foi sequestrado e escravizado quando tinha 11 anos e negociado por comerciantes locais. Ele foi enviado através do Atlântico para Barbados e depois para a Virgínia. Por lá foi vendido a um oficial da Marinha Real, com quem viajou pelos oceanos por cerca de oito anos, período em que aprendeu a ler e escrever. Conseguiu comprar a própria liberdade, e, em Londres, ele se envolveu no movimento para abolir a escravidão. Em 1789, ele publicou sua autobiografia, que é um dos primeiros livros publicados por um escritor negro africano.

Toussaint Louverture (Izak Dahora) – O líder da Revolução do Haiti viveu entre 1743 e 1803, foi escravizado até os 30 anos, e ainda assim aprendeu a ler e escrever. Ao ganhar a alforria, em São Domingos (atual Haiti), Toussaint liderou o levante que conduziu os africanos escravizados a uma vitória sobre os colonizadores franceses, aboliu a escravidão no local. Capturado e preso em 1802, ele deixou o Haiti sob o comando de Jean-Jacques Dessalines, que venceu a revolução e, em 1804, proclamou a independência de São Domingos.

Harriet Tubman (Olivia Araujo) – Ex-escravizada, tem data de nascimento imprecisa, tida como 1820 ou 22, e viveu até 1913. Ela se alistou como cozinheira e enfermeira durante a Guerra Civil Americana para espionar e captar informações, e ali ajudou na fuga de centenas de escravizados dos territórios dominados das fazendas do sul dos Estados Unidos rumo ao norte do país, onde não havia escravidão, e ao Canadá.

Mahommah G. Baquaqua (Reinaldo Junior) – Ex-escravizado, viveu entre 1820 e 1857, nasceu na África Ocidental, no atual Benin, veio em um navio negreiro que aportou em Pernambuco. Mas o trabalho em um navio mercante, que o levou para Nova York, mudou sua vida completamente. Naquela época, os estados do Norte dos Estados Unidos já tinham abolido a escravidão, e Baquaqua conseguiu fugir. Em Detroit, publicou sua biografia, que é um dos poucos registros da época contados nas palavras de um negro escravizado no Brasil, e que descreve em detalhes os hediondos castigos cometidos contra os escravizados no país.

Virgínia Leone Bicudo (Aline Deluna) – Socióloga e primeira mulher psicanalista brasileira, nasceu em São Paulo e viveu entre 1910 e 2003. Cofundadora da Sociedade Brasileira de Psicanálise, é uma das responsáveis por importantes publicações na área.

Luiz Gama (Flavio Bauraqui) – Importante líder abolicionista, jornalista e poeta brasileiro, nasceu em Salvador e viveu entre 1830 e 1882. Filho de um descendente de portugueses com uma escravizada liberta, a revolucionária Luiza Mahin, foi vendido pelo próprio pai, depois que sua mãe foi exilada por motivos políticos. Autodidata, se tornou um dos advogados abolicionistas mais atuantes do país, responsável pela libertação de centenas de negros mantidos no cativeiro.

Rosa Parks (Barbara Reis) – Ativista dos direitos civis, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1913 a 2005. Atuava no Montgomery, capital do Estado de Alabama, no Sul dos Estados Unidos, centro dos maiores conflitos raciais do país. É tida como a “mãe do moderno movimento dos direitos civis” nos Estados Unidos.

Nelson Mandela (Bukassa Kabengele) – Advogado, presidente da África do Sul, viveu entre 1918 e 2013. Mandela liderou o movimento contra o Apartheid – legislação que segregava os negros no país. Condenado em 1964 à prisão perpetua, foi libertado em 1990, depois de grande pressão internacional. Recebeu o “Prêmio Nobel da Paz”, em dezembro de 1993, pela sua luta contra o regime de segregação racial.

James Baldwin (Angelo Flavio) – Escritor, dramaturgo, poeta e crítico social, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1924 e 1987. Na escola, seu talento para a escrita foi notado desde cedo e foi estimulado por professores. Em Paris, escreveu o livro semiautobiográfico ‘Go tell it on the mountain’, publicado em 1953 e considerado pela revista Time, em 2005, um dos 100 melhores romances de língua inglesa do século 20.

Malcolm X (Samuel Melo) – Ativista de direitos civis, nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1925 e 1965. Por influência dos irmãos aderiu ao islamismo. Por conta de sua inteligência, oratória, personalidade forte, logo arrebatou multidões. Com o tempo, seus discursos ficaram cada vez mais concorridos e inflamados. Assim como sua popularidade cresceu, aumentou sua rejeição e fez inimizades que o levaram a ser assassinado.

Milton Santos (Aílton Graça) – Geógrafo, jornalista, advogado e professor universitário, nasceu em São Paulo, e viveu entre 1926 e 2001. É reconhecido mundialmente como um dos maiores geógrafos brasileiros e, em 1994, foi consagrado com o Prêmio Vautrin Lud (algo como o prêmio Nobel da Geografia) e tem mais de 40 livros publicados em sete línguas.

Martin Luther King (Guilherme Silva) – Pastor batista e ativista político, nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1929 e 1968. Dentro do movimento negro, lutava pela igualdade civil entre negros e brancos e tinha como estratégia de luta o método da não-violência e a pregação de amor ao próximo, inspiradas nas ideias cristãs.

Nina Simone (Ivy Souza) – Cantora, compositora e ativista pelos direitos civis, nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1933 e 2003. Usava suas canções para expressar sua revolta com os conflitos raciais que testemunhou desde a infância no Sul dos EUA.

Lélia Gonzalez (Mariana Nunes) – Historiadora, antropóloga e professora, nasceu em Belo Horizonte, e viveu entre 1935 e 1994. Intelectual que dedicou parte de seu trabalho a analisar os efeitos da nefasta combinação entre racismo e sexismo na situação das mulheres negras, além de discutir a linguagem e criar as noções de amefricanidade e pretuguês.

Muhammad Ali (Babu Santana) – Maior pugilista da História, eleito “O Desportista do Século”, nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1942 e 2016. Ali nasceu Cassius Clay e a vitória no pugilismo veio junto com sua conversão ao islã e a mudança de nome. Ele passaria então a se chamar Muhammad Ali. Convocado, recusou-se a ir à guerra do Vietnã e desafiou o governo americano. A atitude rendeu a cassação de seu título de pesos pesados e o deixou por três anos longe dos ringues até que a Suprema Corte decidisse a seu favor.

Angela Davis (Naruna Costa) – Filósofa e ativista, nasceu em 1944 nos Estados Unidos. Ainda adolescente ela organizou grupos de estudo inter-raciais, que acabaram perseguidos e proibidos pela polícia. Foi perseguida por sua associação com o partido comunista americano e com os Panteras Negras, condenada e presa sem provas. Depois da prisão, Angela se tornou uma influente professora de história e passou a militar contra o sistema carcerário norte-americano.

Luiza Bairros (Valdineia Soriano) – Administradora e cientista Social, nasceu em Porto Alegre, viveu entre 1953 e 2016. Foi um dos nomes mais atuantes do Movimento Negro Unificado (MNU), a principal organização da comunidade negra do país na segunda metade do século XX, também ficou marcada por sua trajetória política. Foi secretária de Promoção da Igualdade Racial da Bahia entre 2007 e 2011 e ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, entre 2011 e 2014.

Marielle Franco (Taís Araujo) – Vereadora, socióloga, ativista de direitos humanos, nasceu no Rio de Janeiro, no Complexo da Maré, viveu entre 1979 e 2018. Eleita vereadora em 2016, presidiu a Comissão de Defesa da Mulheres e foi executada na noite de 14 de março de 2018. Sua morte virou um marco e motivou protestos por vários países do mundo. Ainda hoje o caso não foi desvendado. A vereadora defendia as causas das mulheres, negros, LGBTs e da periferia.

Mirtes Souza (Tatiana Tiburcio) – Mãe do menino Miguel Otávio, que morreu após cair de um prédio de luxo no Recife.

Neilton Matos Pinto (Silvio Guindane) – Pai do adolescente João Pedro Matos Pinto, assassinado na favela do Salgueiro, em São Gonçalo.

Jovem protesto George Floyd (Tulanih Pereira) – Atriz interpreta um misto de depoimentos de manifestantes à época do trágico episódio que culminou com a morte de George Floyd, dando início a uma onda de protestos em várias partes do mundo.

Babu Santana, Heloisa Jorge, Olivia Araujo e Reinaldo Junior detalham atuação no especial

Independentemente da época, a trajetória de luta contra o racismo e em favor da justiça e da liberdade coloca na mesma página a rainha Nzinga Mbandi (Heloisa Jorge), ex-escravizados como Baquaqua (Reinaldo Junior) e Harriet Tubman (Olivia Araujo) e o lutador Muhammad Ali (Babu Santana). Os quatro dão alguns dos 22 depoimentos históricos que o público vai conferir em ‘Falas Negras’, especial idealizado por Manuela Dias e dirigido por Lázaro Ramos que a TV Globo exibe no dia 20 de novembro. Em entrevistas abaixo, Heloisa Jorge, Reinaldo Junior, Olivia Araujo e Babu Santana falam sobre a experiência de participar do especial na pele de personagens tão emblemáticos.

Heloisa JORGE

Heloisa Jorge é Nzinga Mbandi – A rainha do Reino do Dongo e Matamba nasceu na Angola e viveu entre 1583 a 1663, e simboliza a resistência africana à colonização e a comercialização de escravos. Foi uma rainha combatente, destemida, chefiou pessoalmente o exército até os 73 anos de idade.

Como foi interpretar Nzinga Mbandi?
Foi mágico e desafiador ao mesmo tempo, porque a Rainha Nzinga Mbandi é uma referência muito valiosa para a construção da nossa história e identidade em Angola. Quando eu falo da Nzinga, me lembro da minha infância no meu país, me traz a sensação bonita do pertencimento, lembro com saudade do bairro da Maianga em Luanda onde eu estudei, dos primeiros livros de história que contavam que a Njinga foi a mulher destemida e astuta que lutou até quase os 72 anos de idade contra a coroa portuguesa. A Nzinga é um dos mais importantes símbolos nacionais que nós temos lá. Essa mulher lutou muito para defender o reino do Ndongo e da Matamba, comandou um exército naquele tempo, uma estrategista nata que negociava em pé de igualdade com os portugueses. Foi muito emocionante dizer as palavras que ela mesma escreveu na carta para o governador português da época, me senti orgulhosa por ser filha daquele país e muito feliz em poder honrar o lugar de onde eu vim partilhando um pouco do que a Rainha Nzinga representa não só para Angola, mas para todo o continente africano.

Acredita que o programa vai tocar o espectador?
Espero que a partir dos relatos históricos as pessoas se interessem em refletir sobre o Brasil e o mundo que nós temos hoje. Acredito que será mais uma ótima oportunidade para se abrir a escuta e conhecer um pouco mais sobre a nossa história.

Olívia Araújo

Olivia Araujo é Harriet Tubman – Ex-escravizada, tem data de nascimento imprecisa, tida como 1820 ou 22, e viveu até 1913. Ela se alistou como cozinheira e enfermeira durante a Guerra Civil Americana para espionar e captar informações, e ali ajudou na fuga de centenas de escravizados dos territórios dominados das fazendas do sul dos Estados Unidos rumo ao norte do país, onde não havia escravidão, e ao Canadá.

Como foi viver Harriet Tubman?
Fiquei muito feliz e emocionada de ser a voz dela. Uma história linda dessa mulher que pensou e fez pelo coletivo, libertou pelo menos 300 pessoas escravizadas, foi enfermeira, foi para a frente de batalha e participou do movimento feminista. Uma mulher incrível que merece ser reconhecida e respeitada.

O que 20 de novembro significa para você?
Essa data marca o reconhecimento por todos os que fizeram o caminho da liberdade, da humanização, e resgate da dignidade do povo preto. Lembra daqueles que se mantiveram vivos mesmo com toda a adversidade e crueldade para que hoje nós possamos estar aqui e seguir em frente com muito mais possibilidades.

Reinaldo Junior

Reinaldo Junior é Mahommah G. Baquaqua – Ex-escravizado, viveu entre 1820 e 1857, nasceu na África Ocidental, no atual Benin, veio em um navio negreiro que aportou em Pernambuco. Mas o trabalho em um navio mercante, que o levou para Nova York, mudou sua vida completamente. Naquela época, os estados do Norte dos Estados Unidos já tinham abolido a escravidão, e Baquaqua conseguiu fugir. Em Detroit, publicou sua biografia, que é um dos poucos registros da época contados nas palavras de um negro escravizado no Brasil, e que descreve em detalhes os hediondos castigos cometidos contra os escravizados no país.

Você se emocionou ao interpretar Baquaqua?
Ele nos deixa um legado de levante e rebeldia através da sua inteligência e a não aceitação da condição imposta como “escravo”. Impossível não se emocionar com um sentimento que nos atravessa há pelo menos 300 anos, que é o sentimento de “eu prefiro morrer do que viver como escravo”. Acredito que seja o grito engasgado da maioria de pretos trabalhadores que vivem em condições subalternas.

Qual o maior mérito do especial para você?
O de termos 22 vozes e relatos históricos, reais, para milhões de brasileiros que se reconhecem nesses corpos, falas e vivências! Identificação direta!

Babu Santana

Babu Santana é Muhammad Ali – Maior pugilista da História, eleito “O Desportista do Século”, nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1942 a 2016. Ali nasceu Cassius Clay e a vitória no pugilismo veio junto com sua conversão ao islã e a mudança de nome. Ele passaria então a se chamar Muhammad Ali. Convocado, recusou-se a ir à guerra do Vietnã e desafiou o governo americano. A atitude rendeu a cassação de seu título de pesos pesados e o deixou por três anos longe dos ringues até que a Suprema Corte decidisse a seu favor.

Como foi viver Muhammad Ali?
Foi demais porque Muhammad é um exemplo, ícone, ídolo a ser seguido. Quando eu era mais jovem, sonhava me tornar lutador e ele era um dos maiores lutadores do mundo. Quando o vi falando, foi a primeira vez que eu vi um lutador falar daquele jeito. Eu me emocionei pelas condições em que ele se encontrava, as condições da luta dele foram muito traumáticas.

Barbara Reis, Izak Dahora, Guilherme Silva e Tulanih Pereira comentam a atuação no especial

Rosa Parks ( Barbara Reis )

‘Falas Negras’, especial que a TV Globo exibe no dia 20 de novembro, traz falas históricas, interpretadas por atores, todas em primeira pessoa, em um projeto criado por Manuela Dias, sob a direção de Lázaro Ramos, e que mostra que o espírito de luta e de resistência dos povos afrodiaspóricos ultrapassa a barreira do tempo, os limites territoriais, e permanece vivo até os dias de hoje. Entre os depoimentos autobiográficos que serão apresentados no Dia da Consciência Negra estão os de Martin Luther King Jr., da ativista Rosa Parks, do líder da Revolução do Haiti Toussaint Louverture e um misto de falas de duas manifestantes durante os protestos nos Estados Unidos à época da morte de George Floyd. Em entrevistas abaixo, os atores Guilherme Silva, Izak Dahora, Barbara Reis e Tulanih Pereira descrevem sobre a emoção de atuar no especial.

Guilherme Silva

Guilherme Silva interpreta Martin Luther King Jr. – Pastor batista e ativista político, que nasceu nos Estados Unidos, viveu entre 1929 e 1968. Dentro do movimento negro, lutava pela igualdade civil entre negros e brancos e tinha como estratégia de luta o método da não-violência e a pregação de amor ao próximo, inspiradas nas ideias cristãs.

Como foi interpretar Martin Luther King Jr.?
Foi de grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo de muita satisfação, novos aprendizados, reavaliações e entendimentos de muitas das coisas que venho pautando e desenvolvendo em minha vida pessoal, com a família, amigos, colegas de trabalho e em minha carreira profissional artista e ativista. Muitas das questões, ideais, estratégias, árduas batalhas e conquistas que nossos antepassados, avós, avôs, o próprio Martin Luther King Jr, a Lélia Gonzalez, Marielle Franco, Nina Simone, Malcolm X, Luiz Gama, Abdias do Nascimento, e tantas outras personalidades fizeram e fazem, pautaram, batalharam e conquistaram, para que hoje, felizmente, possamos colher bons frutos em termos de direitos civis, mas que, ainda, precisamos lutar e mostrar a importância de tudo isso que ainda se faz necessário.

Qual o significado do dia 20 de novembro para você?
Para além de uma data comemorativa, é uma data de apelo e exigências, em prol da visibilidade e conscientização das mazelas, infelizmente, ainda sofridas pelos afrodescendentes. É de extrema importância para que possamos expor o que ainda precisa ser revisto das práticas epistemicidas fomentadas pelo racismo estrutural. Então, dessa forma, para mim, a data tem um significado importante e necessário!

Izak Dahora

Izak Dahora vive Toussaint Louverture – O líder da Revolução do Haiti viveu entre 1743 e 1803, foi escravizado até os 30 anos, e ainda assim aprendeu a ler e escrever. Ao ganhar a alforria, em São Domingos (atual Haiti), Toussaint liderou o levante que conduziu os africanos escravizados a uma vitória sobre os colonizadores franceses, aboliu a escravidão no local. Capturado e preso em 1802, ele deixou o Haiti sob o comando de Jean-Jacques Dessalines, que venceu a Revolução e, em 1804, proclamou a independência de São Domingos.

Como foi interpretar Toussaint Louverture?
É muito significativo para um ator saber que interpreta um personagem de relevância histórica ou que integra um projeto de importância histórico-social. “Falas negras” reúne esses dois atributos. Então, interpretar Toussaint Loverture é uma oportunidade que me deixou desde sempre honrado. E, estudando para o projeto, descobri um desses elementos misteriosos entre ator e personagem difíceis de explicar: um dos filhos de Toussaint chamava Isaac. (A fonte é o livro “A revolução do Haiti e o Brasil escravista”, de Marco Morel).

Como espera que o especial seja recebido?
Fico pensando nos estudantes assistindo a esses personagens representados, buscando após a exibição mais informações nas redes e nos livros sobre os mesmos, discutindo, se reconhecendo, cobrando que suas grades curriculares incluam essas vozes tão negligenciadas; e o mesmo se pode dizer das outras faixas etárias, no tanto de informações e conscientizações que o contato com essas personagens emancipatórias pode causar. Esse projeto propicia o encontro potente com ícones da negritude, cujas trajetórias têm sido, há séculos, invisibilizadas pelos poderes hegemônicos. Penso que “Falas negras” faz parte de um processo histórico brasileiro e internacional irreversível.

Barbara Reis

Barbara Reis interpreta Rosa Parks – Ativista dos direitos civis, nasceu nos Estados Unidos e viveu entre 1913 a 2005, atuava no Montgomery, capital do Estado de Alabama, no Sul dos Estados Unidos, centro dos maiores conflitos raciais do país. É tida como a “mãe do moderno movimento dos direitos civis” nos Estados Unidos.

Como foi interpretar Rosa Parks?
Eu sempre tenho o prazer de interpretar mulheres fortes. Rosa veio ao meu encontro. Uma mulher que, com uma decisão, iniciou toda a história da luta antissegregacionista. Uma potência. Eu estou me sentindo muito honrada de fazer parte de um elenco que admiro demais, grandes atores que representam muito do que esse especial quer falar, e claro, ser dirigida por Lázaro Ramos.

Qual o significado da data de 20 de novembro para você?
Significa a luta pela igualdade e a inserção da população negra em todos os lugares sem restrição dos seus direitos. E traz à lembrança todos os homens e mulheres que lutaram pelos direitos, principalmente Zumbi dos Palmares.

Tulaninh Pereira

Tulanih Pereira encarna jovem de protesto George Floyd – Atriz interpreta um misto de depoimentos de manifestantes à época do trágico episódio que culminou na morte de George Floyd, que deu início a uma onda de protestos em várias partes do mundo.

Como o assassinato do George Floyd impactou você?
Outro dia ouvi que todo o povo negro está com esse joelho no pescoço que assassinou George Floyd, pois a verdade é que nós não respiramos há séculos. Eu sou mãe de um menino negro e toda noite antes de dormir eu agradeço por tê-lo comigo e por poder garantir sua segurança, mas até quando? A vida do George nos foi tirada, assim como as vidas de tantos outros corpos negros que diariamente são assassinados aqui e ao redor do mundo, só que ninguém aguenta mais! Assim como Marielle, George é mais uma semente. A gente quer e vai viver! Ainda estamos respirando!

Qual a sua expectativa para esse especial?
Sabe quando a gente sorri sem motivo? Como se uma felicidade inundasse o peito e transbordasse tudo ao redor? É assim que tenho sentido todos os dias. Imensamente grata à vida por este momento e mais ainda ao Lázaro Ramos e a Manuela Dias por este projeto lindo, cheio de força e que tenho a hora de fazer parte ao lado de um elenco fabuloso. É brilhante que o especial “Falas Negras” esteja também dando espaço para novos rostos e vozes na cena.

FALAS NEGRAS

Idealizado e organizado por Manuela Dias, ‘Falas Negras’ é dirigido por Lázaro Ramos, conta com Thaís Fragozo na pesquisa e Aline Maia como consultora e pesquisadora. Integram o elenco do especial Fabricio Boliveira, Babu Santana, Guilherme Silva, Ivy Souza, Naruna Costa, Tais Araujo, Heloisa Jorge, Barbara Reis, Mariana Nunes, Izak Dahora, Silvio Guindane, Olivia Araujo, Reinaldo Junior, Aline Deluna, Flávio Bauraqui, Bukassa, Angelo Flavio, Samuel Melo, Aílton Graça, Tulanih Pereira, Valdineia Soriano e Tatiana Tibúrcio

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